O meu navicular gosta dos ventos, mas arrisca ser bússola de si mesmo. Foto: Acervo da autora Tenho desenvolvido novos olhos de ver os pés.Todos os pés. Começando pelos meus. Sibélia Zanon* Estávamos eu, minha irmã e meu sobrinho sentados no sofá, todos sem sapatos, pés pousados em fila sobre a mesa de centro.Olhamos para aquela nudez e constatamos que ali estava impressa alguma irmandade. Foram os mindinhos apequenados com suas unhas invisibilizadas que nos chamaram a atenção.Não chegamos a lembrar de Tarsila e seu Abaporu, mas definitivamente ali os pés não estavam destinados à publicidade de sandálias de tira fina. Por termos muito a caminhar, a natureza era sabida e nos presenteou com bases de consistência. Tenho desenvolvido novos olhos de ver os pés. Todos os pés. Começando pelos meus. Caminho na areia e vejo diferentes pegadas impressas: imagino proporções de corpos e narrativas de trajetos. Cruzo com pegadas que parecem setas indicadoras ou estrelas estilizadas. De pernas compridas, os passos da ave limícola se guiam pelo apetite por pequenos invertebrados. Todo passo é guiado por algum desejo. Nesse atrito com areia e sal, que lava por fora e alivia por dentro, penso que a pandemia libertou um pouco os pés. Volto à cidade feliz com meus tênis, mas na Sala São Paulo uma mulher sobe os degraus de madeira vazados montada em saltos finos ostentando uma plataforma. Sei que as gentes necessitam se alongar. Eu também. Avalio os possíveis alongamentos que somos capazes de fazer sem que o corpo padeça: os físicos no colchonete, os alongamentos de ideias e também aqueles que ampliam os gestos. Alongamentos com novos alcances, feito a variação das marés, para tocar e ser tocado com efeito. Mesmo nesses tempos de andanças limitadas, duas pessoas que conheço quebraram recentemente o pé. Pior é que não foram eventos que inspiram narrativas. Uma quebrou na própria sala de estar, meio à toa. A outra quebrou descendo a rampa do quintal. Não sei quais foram os ossos vitimizados. Temos mais de 20 em cada pé, estrutura farta e disponível para dar o próximo passo. Quando estive na praia no ano passado, depois de muito calcar minhas pegadas na areia, comecei a sentir uma dor mínima no pé. O meu pé não era o esquerdo, era o direito. A dor escolheu um osso que até então não tinha nome. Como um vilarejo perdido, ele repentinamente ganhou notoriedade. Cuboide? Navicular? De quantos mastros é feito um pé direito? Por onde ele tenciona navegar? O meu navicular gosta dos ventos, mas arrisca ser bússola de si mesmo. Procura se irmanar a navegadores sábios e silencia para escutar a frequência das ondas. Orgulha-se em ser o precursor do próximo passo. Por isso, a dor minúscula, intrusa feito ermitão que sobreviveu por dias usando concha alheia, foi um lembrete. Um chamado para a importância do passo. – Para onde você quer mesmo ir? Molho meus pés enquanto a onda lava as pegadas. *É jornalista, escritora e autora de Espiando pela Fresta