imagem/ Luis Ruiz in Málaga, do Urban Sketchers

André Filipe, colaboração para Fina

– Eu não uso relógio há mais de quarenta anos! – Disse Olavo visivelmente orgulhoso. – Detesto cumprir horários. Esse negócio de almoçar à uma da tarde, jantar às oito, dormir às onze, comigo não rola. Bater ponto em trabalho? Deus me livre!

– E como faz então? – perguntou Alice, a mais jovem do grupo.

– É muito simples: sou o meu próprio patrão. É isso aí! Freelancer, como se diz.

Era um grupo composto de seis pessoas, numa faixa etária variando entre 40 e 60, reunido em volta da mesa de um pequeno bar. Olavo, o mais recente divorciado da turma, exalando uma suposta juvenilidade, contava suas últimas aventuras. Nas palavras do próprio, após os cinquenta, havia decidido adotar um estilo de vida mais leve, good vibes.

– Depois de um casamento longo como foi o meu, tudo que a gente menos quer na vida é compromisso, seja lá com o que for. E olhem, meus amigos, mais de vinte anos aguentando aquela mulher não é para qualquer um.

– Ah, sem essa, Olavo! – protestou Silvinha, amiga do ex-casal, visivelmente ofendida com a alfinetada. – A Roberta é uma mulher incrível e você bem que aprontava das suas.

– Vocês mulheres se protegem, essa que é a verdade – disparou Marcelo, conhecido por sua vasta coleção de frases e ditos sobre as mulheres, seu tema favorito.

– Claro, meu filho, senão vocês homens devoram a gente.

Olavo foi logo emendando:

– Mulher incrível é? Isso porque você não convivia com ela. Reclamando vinte e quatro horas, sempre insatisfeita com tudo, um mau humor do cão. E o sexo? A cada dois meses, só para comparecer, sem prazer nenhum. Assim não tem amor que sustente.

– E desde quando você tem fôlego pra mais que isso, Olavo? – disse Juca, provocando o riso geral.

– Tá por fora! Aquela mulher sugava minhas energias. Depois que me separei rejuvenesci pelo menos dez anos. Passei a trabalhar menos, comer melhor, parei de fumar e estou até malhando. Só não consegui largar o uísque, que também não sou de ferro.

E levantou-se, dando uma voltinha, para exibir o físico ainda resistente aos seus quase sessenta anos.

– Mas o melhor vem agora, – disse com certo suspense – estou namorando uma garota de vinte e cinco!

Fez-se um silêncio na mesa e Olavo prosseguiu, sob o olhar perplexo dos amigos:

– Isso mesmo: vinte e cinco em flor. Uma coisa linda, vocês precisam ver! Esse está sendo o maior revigorante. Eu renasci, meus caros.

– Mas você só pode estar louco!

– Já está senil!

– Você não tem medo de ser confundido com o pai dela não?

E riram.

– Isso! Podem ir me gozando à vontade. A Tati não liga para esse negócio de diferença de idade, acha uma tremenda bobagem. E eu também. Estamos ótimos, felizes. Nos conhecemos na praia, quer coisa mais romântica? Um amor de verão – completou, como se estivesse dando título à um romance de ficção.

Zonzos, os amigos pediram mais uma rodada para digerir a boa nova. Olavo levantou-se:

– Vocês vão me desculpar, mas eu encerro por aqui. A Tati está chegando. Nós vamos ao cinema.

E quando a turma estava prestes a protestar, a famosa garota irrompeu bar adentro. Cabelos claros, cintura fina, sorriso largo e franco. Tascou, sem inibição, um selinho em Olavo e saíram de mãos dadas, exalando felicidade rua a fora.