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Set10

Maria do Rosário Pedreira

Joaquim Manuel Magalhães – o poeta que, infelizmente, resolveu retalhar a sua obra há pouco tempo, reduzindo-a a quase nada – foi meu professor na Faculdade de Letras durante três anos. Era, digam o que disserem, um excelente professor, com uma cultura abrangente e uma grande capacidade de fazer com que os alunos reconhecessem e gostassem de coisas boas (não só literárias). Esses anos de universidade foram muito sacudidos por greves e, volta não volta, os transportes resolviam parar todos ao mesmo tempo e os professores decretavam que não havia aulas (umas coisas arrastavam outras, mas, mesmo com greves, ninguém ficava por ensinar). No entanto, Joaquim Manuel Magalhães, já um pouco farto de interrupções no programa, quando uma nova greve se anunciou disse que tinha carro e que, por isso, viria dar aulas a quem aparecesse. Apareceram seis pessoas, as que viviam perto e podiam ir a pé. Claro que não tivemos aula, estivemos apenas a conversar sobre o que cada um andava a ler. Recordo que, na altura, eu lia, fascinada, O Silêncio, de Teolinda Gersão, que fora professora de Joaquim Manuel Magalhães (e é autora de vários livros notáveis e, quanto a mim, bastante subestimada pelos leitores portugueses). Foi por causa deste pequeno romance tão profundo e bonito que o professor me emprestou o meu primeiro livro de Duras (Moderato Cantabile, numa edição de bolso em francês), fazendo-me descobrir uma autora de quem nunca mais me separei. Mas não é só por isso que O Silêncio merece destaque. Recomendo-o vivamente a todos – calados ou faladores.