Brasileiros gostam mesmo é de uma “quebra” na rotina da tragicomédia que é viver no País, afinal, quando não se pode mais chorar damos uma risadinha que melhora.
Isabella Marzolla*, colaboração para Fina
Quais serão os reais resultados gerados pela CPI da Pandemia? Quais são as chances, de fato, de ações contundentes – como condenações judiciais visando políticos e a abertura de um processo de impeachment do Presidente – contra os responsáveis por descrença na ciência e a negligência na saúde?
Abrindo a sequência – tão esperada — de testemunhas para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, tivemos Luiz Henrique Mandetta, ex-Ministro da Saúde do governo Bolsonaro, no dia 4 de maio, e nos dias subsequentes vieram o segundo ex-Ministro da Saúde, Nelson Teich e depois o atual mandatário da pasta, Marcelo Queiroga.
Na segunda semana de depoimentos vieram o Almirante Antonio Barra Torres, diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Fábio Wajngarten, ex-secretário da Secretaria Especial de Comunicação Social (SECOM) e Carlos Murillo, ex-Gerente-Geral e representante do laboratório Pfizer no Brasil.
Todos acabaram, em seus depoimentos, confirmando informações que a imprensa e partes da sociedade já suspeitavam; o governo federal e especialmente o Presidente Bolsonaro incentivam o uso da cloroquina e o kit completo do “tratamento precoce” (sem comprovação científica e fortemente contraindicado pela OMS). A tragédia no estado do Amazonas poderia ter sido evitada, a Pfizer apresentou proposta de compra de vacinas para o Brasil em agosto de 2020 e foi ignorada ao menos cinco vezes depois, fake news eram reproduzidas pelas canais oficiais de comunicação do próprio governo e através de influenciadores comprados, e assim vai.
Na quarta-feira passada (12/05) em um dos depoimentos mais bombásticos, Fábio Wajngarten passou um sufoco tentando de maneira polida mentir parte do depoimento dado à revista Veja, na matéria intitulada “Houve incompetência e ineficiência”. Wajngarten foi ameaçado de prisão em flagrante por mentir na comissão pelo senador da oposição e relator Renan Calheiros (DEM-AL), que não teve seu pedido acatado pelo presidente da Comissão Omar Aziz (PSD-AM).
Os depoimentos na CPI são a versão extreme de um “Roda Viva” com convidados suspeitos ou testemunhas de um suposto crime contra a vida dos brasileiros. Mas esse “Roda Viva” ninguém deixa de assistir, talvez a audiência da TV Senado esteja batendo a da TV Cultura (brincadeira).
O BBB foi substituído pela CPI da Pandemia. É um show que ocupa a tarde toda e é assistido com raiva e uma vontade “justiceira” de um povo cansado, esperançoso que a verdade venha à tona e que saia da boca de um dos “convidados” da CPI alguma coisa estrondosa como: “Sim, o Presidente Bolsonaro é culpado. Ele não tem capacidade de gerenciar um País, especialmente em uma crise como essa”.
A CPI é formada por senadores governistas, oposicionistas e independentes. As testemunhas são bombardeadas por perguntas às vezes coerentes, às vezes lunáticas, por vezes desencontradas. Nas discussões é quase um “vale-tudo” de narrativos. É xingamento, bate-boca sem fundamento e claro, exibição de egos inflados masculinos (só há senadores como titulares na Comissão). Como todo bom político, os senadores – em particular os “raposas velhas” – não desperdiçam oportunidades para fazer autopropaganda, são todos “jabazeiros” (propaganda oportunista que se faz de forma espontânea, mas em momento inadequado) natos.
O próprio Renan Calheiros (MDB-AL), que carrega nas costas um conjunto de denúncias de corrupção conhecidos como Renangate — em analogia ao escândalo do Watergate no EUA — caiu nos braços da torcida oposicionista do governo porque está fazendo um verdadeiro espetáculo em humilhar os ex-funcionários de Bolsonaro, como o Fábio Wajngarten, que precisou fazer das pedras leite para sair livre daquele plenário — pelo menos por enquanto.
Tudo é um espetáculo, um show. Exaustos de um dia a dia repleto de tristezas e calamidades públicas, os brasileiros gostam mesmo é de uma “quebra” na rotina da tragicomédia que é viver no País, afinal, quando não se pode mais chorar damos uma risadinha que melhora.
Ao final da CPI será produzido um relatório pelo senador e relator Renan Calheiros (MDB-AL). Esse relatório vai ser votado pelo restante da Comissão e, se aprovado, cai no colo da Advocacia Geral da União, ou seja, de um aliado do Presidente, Augusto Aras. Se Augusto Aras aceitar a denúncia de crime do relatório ele manda para o Ministério Público Federal, para só então o processo de impeachment ou demais condenações contra membros da cúpula do governo possam ser feitas.
A partir disso retomo à pergunta do início e proponho a reflexão a você leitor: existem chances, de fato, de haver ações contundentes contra os culpados?
Sim, existem. Mas não são grandes e necessariamente eficazes.
Por outro lado, a CPI da Pandemia pode ser boa inciativa para abrir os olhos da população. O último Datafolha (realizado nos dias 11 e 12 de maio de 2021) mostrou que Lula lidera a corrida eleitoral de 2022 e marca 55% contra 32% de Bolsonaro no 2º turno. Bolsonaro também tem a maior rejeição de todos os tempos de seu mandato, batendo 45%. Esperança não falta.

*Artigos de opinião não expressam, necessariamente, a visão da revista e seus autores são os únicos responsáveis pelo emitido.
Publicado por Isabella Marzolla
É jornalista, escreve no blog Inconsciente Coletivo, hospedado na home do Estadão. Escreve semanalmente na Fina. Twitter: @IsaMarzolla Ver todos os posts de Isabella Marzolla