No meio do caminho tinha um sapo
fobias, fobia de sapos, cotidiano, crônica bem-humorada, medo
No estreito e único caminho que me leva até a saída do prédio estava ele. Esverdeado, com uma crosta úmida, salpicado de manchas negras. André Filipe*, colaboração para Fina Outro dia, como de costume, estava indo à padaria. Único compromisso diário possível ultimamente. Seis horas da tarde mais ou menos, uma lua já proeminente no céu, brisa fresca correndo, cheirinho de mato recém molhado, enfim, aquilo que parecia ser o início de uma bela noite. Mal sabia eu que dali a alguns instantes o horror se apresentaria diante de mim. Literalmente. No estreito e único caminho que me leva até a saída do prédio estava ele. Esverdeado, com uma crosta úmida, salpicado de manchas negras. Parei e senti meu sangue gelar. Não podia acreditar no que via. Era isso mesmo: um sapo! Ele estava parado bem no meio do caminho, como no poema do Drummond, e me observava com seus olhos negros e diabólicos. Tenho pavor de sapo. Sinto nojo, medo, verdadeiro pânico. Confesso que está além das minhas forças. Não havia outra saída. Para chegar até a padaria precisaria obrigatoriamente passar ao lado do vil anfíbio, o que estava, claro, fora de cogitação. Pronto. Acabou-se tudo. O pão quentinho, o queijo, os sonhos que pretendia comprar. De repente a noite tornou-se feia e amarga, a lua sumiu, o ar era sufocante. Tudo por causa daquela criatura que se interpunha entre mim e a felicidade. Tantos jardins bonitos por aí, tantos lagos quentinhos, tantos becos mais agradáveis nesta cidade e aquele sapo tinha que escolher justamente o meu caminho? Ficamos nos encarando por alguns minutos e, de repente, pensei na bobagem que estava fazendo. Afinal, era apenas um sapo, que mal poderia me fazer? O que diria um vizinho se passasse por ali e visse aquela cena patética? Um homem feito com medo de um sapinho. No dia seguinte a história já estaria correndo à boca miúda e meu nome cairia em desgraça. Eu não poderia deixar isto acontecer. A vergonha, a reputação destruída, jogada na lama. Ah, isto não! Respirei fundo, reuni forças e decidi enfrentar o canalha. Que vença o melhor! O plano era simples: me esgueirar silenciosamente, colado ao muro, e passar pelo sapo, sem causar o mínimo incômodo. Uma outra opção seria arriscar uma acrobacia que me fizesse voar por cima dele. Descartei esta última com receio de que ele interpretasse o movimento como um ataque. Lá fui eu. Minhas mãos suavam e tremiam. À medida que me aproximava senti, por um momento, um desfalecimento do meu corpo. Me agarrei na parede e fiquei imóvel. Qualquer agitação brusca poderia irritar o animal que se lançaria sobre mim com sua pele gelada e sua boca infernal, o que resultaria no meu óbito imediato. Vi que não era possível e retornei à posição inicial. De repente fui tomado por uma fúria incontrolável. Praguejei contra a natureza, o universo, a sorte. Lamentei não ter nas mãos um pedaço de pau que fosse. Neste caso, poderia desferir um golpe fatal, sem piedade, direto nas costas do bicho. Ou ainda dar-lhe uma tacada que lançaria o sapo para longe, como uma bola de golfe. Pensava nestas alternativas quando subitamente, como se tivesse descoberto meus planos secretos, ele virou-se e pulou furiosamente na minha direção. Não é preciso dizer que em tempo recorde eu subi três lances de escada, tranquei a porta, selei as janelas e passei uma semana sem comer pão. Reafirmo aqui meu ódio por todos os sapos do mundo. André Filipe nasceu em 1992. Jornalista e escritor. Vive em Recife
Texto originalmente publicado em Revista Fina