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Abr24
Maria do Rosário Pedreira
Já aqui falei dela, bem sei, mas vale sempre a pena voltar à irlandesa Claire Keegan, que é a escritora mais parcimoniosa que li na vida. Contida, como não há igual, ela é sobretudo autora de contos (às vezes longos) e amplamente premiada neste género, no qual recebeu o especial elogio do norte-americano George Saunders, ele próprio um génio da short story, que atesta que Keegan é uma das melhores ficcionistas do mundo, e pronto. Mas Claire Keegan tem também uma pequena novela preciosa chamada Pequenas Coisas como Estas, que foi finalista do Booker Prize em 2022 e bem podia ter ganho; e, depois dela, saíram em Portugal Acolher (uma pequena maravilha sobre uma menina que passa o Verão com uma família muito diferente da sua) e, mais recentemente, A Uma Hora Tão Tardia, um conjunto de três histórias sem uma palavra a mais, que têm exactamente aquilo que tinham de ter, o que as torna obras-primas de contenção. A primeira mostra como podemos desistir de um casamento por coisas que poderiam parecer insignificantes, mas não são. A segunda, que é metaliterária, fala de uma escritora de 39 anos que vai trabalhar num livro com uma bolsa para a casa onde viveu Heinrich Böll e tem um encontro bastante estranho com um alemão. A última, que nos deixa de cabelos em pé, leva-nos a pensar que ser fiel, mesmo que sem grande entusiasmo, é se calhar a melhor coisa a fazer. Um trio de histórias absolutamente notável, que vem, claro, dar razão ao senhor Saunders.