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Abr24

Maria do Rosário Pedreira

Toda a gente sabe que adoro descobrir palavras novas; e, por isso, tem sido para mim uma alegria publicar nos últimos catorze anos os romances de Mário Cláudio, cheios de vocábulos saborosos, quantas vezes lidos pela primeira vez já depois dos meus cinquenta anos («bazulaque» foi um deles). Quando estes autores, que têm o domínio de um léxico tão amplo, nos deixarem, presumo que muitas destas palavras suculentas sucumbirão com eles e cairão no esquecimento, quiçá substituídas por mais umas inglesices chatas e óbvias. No entanto, em algo bem mais prosaico do que o texto literário (não vos digo já onde), encontrei um dia destes um monte de palavras tão curiosas que até pareciam inventadas por alguém que jogasse aos dicionários: viosinho, rabigato, diogalves, bical, cerceal, alfrocheiro, alvar roxo, gouveio... Bem, aqueles que gostam de vinho verão logo que não sou de muitos copos, pois todas estas palavras são, no fundo, castas da Bairrada, do Dão, do Douro, do Alentejo; li-as gostosamente em rótulos de garrafas enquanto estava à espera de que me trouxessem uma sopinha e tomei nota no telemóvel para as usar futuramente em algum texto ou cantiga. Claro que também havia touriga, verdelho, arinto, encruzado, tinta barroca e outras coisas de que já ouvira falar, mas estes engraçados nomes ficam realmente bem com vinho e com literatura. Quase de certeza, o Paulo Moreiras conhece a maioria, até porque uma das suas personagens se chama Alfrocheiro numa taberna.