06
Jan23
Maria do Rosário Pedreira
Quando acabou a escola, Rahel foi admitida numa medíocre Faculdade de Arquitectura em Deli [...] Os examinadores ficaram impressionados com o tamanho (enorme), e não com a mestria, dos seus esboços de naturezas-mortas feitos a carvão. As linhas descuidadas e estouvadas foram confundidas com arrojo artístico, apesar de a sua criadora não ser artista.
Passou oito anos na faculdade sem terminar o curso de cinco anos e obter a respectiva licenciatura. As propinas eram baixas e não era difícil governar-se, alojando-se num albergue, comendo em cantinas subsidiadas, raramente indo às aulas e, em vez disso, trabalhando como desenhadora em obscuras firmas de arquitectura que exploravam mão-de-obra barata de estudantes a quem cabia fazer os desenhos de apresentação dos projectos e arcar com as culpas quando as coisas corriam mal. Os outros estudantes, especialmente os rapazes, sentiam-se intimidados pela indocilidade de Rahel e pela sua quase feroz falta de ambição. Deixavam-na entregue a si mesma. Nunca a convidavam para as suas casas simpáticas ou festas barulhentas. Até os professores a olhavam com ar desconfiado -- os projectos dela, bizarros e impraticáveis, apresentados em papel castanho barato, a indiferença dela às suas críticas apaixonadas.
Foi quando andava na Faculdade de Arquitectura que Rahel conheceu Larry McCaslin [...]
Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas, tradução de Teresa Casal (Booker Prize, 1997)