(...) «Além disso, a sua fortuna corria mal, mesmo ao desbarato, tomada de resvaladiço pendor. Com as campanhas da Flandres e a estroina folgada que estadeara na corte de França, dissipara um património que só tinha por igual o do grão-mestre de Calatrava.
(...)
Para toda a gente, com resoluto, posto que sério semblante, dissimulou D. Alejandro a sua imensa contrariedade; para todos, afora D. Sol, sua tia pela linha varonil, e D. Gil de Tavera, moço de bom sangue e gentis manhas, que se ilustrara na Catalunha, e feridas mal cicatrizadas impediam de volver à guerra. Sua tia era a dona de mão inflexível e de olho ladino, a quem nada passava estranho no governo da casa; aquele o leal amigo, tão leal que lhe merecia trato de irmão mais novo e tanta confiança como seu santo confessor. E, repousando em D. Sol, cão de fila à roda de Mafalda, e em Gil de Tavera, braço expedito e desenganado para os negócios da fazenda, se partiu aliviado das muitas penas que, enquanto durou a esquipação da sua companhia, zumbiam e lhe enterravam no peito o mais peçonhento farpão.
Começou D. Gil por mandar arvorar cinco samarras de ladrões nos oiteiros do Guadalquivir, a jeito de vê-las bailar ao vento quem passasse na estrada e de darem senha ao longe. E os cinco macabeus, da corda bamba da forca, começaram a guardar granjearias e currais melhor que os mais desalmados couteiros. Depois, a sua mão forte impediu que o Desembargo desse despacho aos credores de Santisteban. Em tudo se pôs, numa palavra, de peito feito, a zelar pela fazenda do amigo como não obraria almoxarife, estreado em tais andanças e ajuramentado às Santas Escrituras.
A estes desvelos respondeu D. Mafalda com franca e honesta estima. Com ele, a sua timidez de órfã degelou. E do fundo do seu seio vieram à luz os mundos novos que lá havia, do mesmo modo que o seu rosto ganhou outras e mais lindas cores. E tanto ela como D. Sol era com grande regalo que o viam galopar à estribeira do coche quando iam ao Paço ou espaireciam no Prado.» ...
(continua)