[…]Era um fim de tarde, em junho. Eu e o Rodrigo disputávamos no bafo uma figurinha do Fillol, goleiro da Argentina, enquanto os outros nos observavam, de pé ou sentados nos bancos de suas bicicletas. Foi quando ouvimos o zumbido, muito mais alto do que o do Jeep do Rodrigo – era o barulho que fariam três abelhas se tivessem o tamanho de três gatos. Ao nos virarmos, demos com o Henrique, de óculos escuros e farda bege, montado numa motinho elétrica, cópia fiel daquela usada pelos Chips, os guardas rodoviários do seriado. […] Dali em diante, ninguém mais queria saber do Jeep, só pensávamos em andar na moto dos Chips.
[…] Já estávamos quase chegando no matão quando o murmúrio elétrico da motinho foi solapado por um ronco alto, tão alto que seria inútil tentar compará-lo ao zumbido de abelhas, ainda que fossem grandes como tigres: o que ouvimos era o estrépito inconfundível de um motor a explosão. O féretro estanco, nos viramos e demos com o Rodrigo, de capacete e luvas, a bordo de um minibugue Fapinha, vermelho.
[…] No mês seguinte, a família do Henrique, com lojas de tapetes espalhadas por toda cidade, mudou-se para uma cobertura, no Morumbi. Não muito depois, Rodrigo e seus pais também partiram, para uma casa com piscina, no Jardim América – tinham então sete locadoras pornôs em São Paulo, duas no Rio de Janeiro e outra em Brasília.
Uma semana após a mudança do Rodrigo, apareceu na rua um corretor de imóveis, acompanhado por um casal. Mostrou a casa aos possíveis compradores e, ao sair, o vi escondendo a chave no quadro de luz. Tarde naquela noite, sem acordar meus pais, escapuli da cama, peguei a chave e entrei na casa vazia. Cruzei a sala, no escuro, para não chamar a atenção dos vizinhos, subi a escada, fui até o quarto do meu amigo e abri o armário onde ficava o Jeep. Sabia que a probabilidade era mínima, quase nula, mas o que custava?Encontrei um pé de meia azul, um Playmobil careca, oito figurinhas do Valdir Peres, três do Juanito e dezessete do Poloskei.