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Nov23

Maria do Rosário Pedreira

A minha geração leu na juventude uma data de livros em que as meninas andavam em colégios internos e ali faziam partidas tremendas às professoras ou choravam que nem Madalenas com saudade dos pais. Era também uma situação comum em raparigas de carne e osso que haviam perdido as mães, cujos pais se tinham separado ou que eram completamente inaptos para as educar, e bem assim em rapazes que se portavam mal e iam de castigo para o colégio interno, geralmente de padres e na província. Num dos estabelecimentos de ensino que eu própria frequentei, com centenas de alunas (na altura, éramos só meninas ou só rapazes), embora quase todas as estudantes fossem externas, havia umas pobres miúdas que viviam no colégio. Vindas de longe, de alguma aldeia perdida no mapa, as freiras davam-lhes a escolaridade, cama e roupa lavada em troca de trabalhos de limpeza e, quem sabe, na esperança de reunirem ao seu rebanho mais umas ovelhas que quisessem um dia ser noviças. Mas há quem tenha frequentado colégios internos para ter uma educação de excelência, como Fleur Jaeggy, a escritora suíça que trabalhou na mítica editora Adelphi, de Roberto Calasso, e acabou sua mulher, além de escritora. O pequeno romance Felizes Anos de Castigo (que é uma obra de culto e acaba de sair em Portugal com tradução de Ana Cláudia Santos) parte provavelmente da sua experiência para nos contar a história de uma rapariga que vive em colégios internos desde os oito anos, colégios esses que recebem ordens da mãe dela, que vive no Brasil (talvez com um segundo marido), e aonde o pai a vai buscar uma ou duas vezes por ano para passarem férias juntos em hotéis, nunca existindo uma casa de família. A chegada de uma aluna nova, Frédérique, sofisticada e inteligente, será uma brecha na monotonia dos seus dias sempre iguais, excepto pelas mortes de progenitores que vão acontecendo e que criam separações e feridas que não saram em muitas colegas. Publicada pela primeira vez em Portugal, uma autora que importa acompanhar.