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«Camões poeta pluriforme. Sarcasmo que não satanismo. O Chiado à baila. Despiques em redondilha. Lei contra rufiões.»

«O exercício das letras não constituía mester nem mesmo ocupação. À parte os cronistas e guardas dos tombos, a quem incumbia a missão de notar os feitos dos monarcas, e se desempenhavam de tal papel como os tabeliães redigem uma escritura, compor um rimance, alinhar um vilancete era próprio de gente que não tinha nada que fazer; modo de gastar os ócios; sem finalidade económica, por conseguinte.»

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«Dos poetas não se fala. Eram cigarras e toda a sua divina voz lançada ao vento. Em regra, por falta de registo -- revistas, gazetas, mil e uma publicações que hoje são bastas como as pragas dos Faraós --, perdia-se, ficava anónima, trocavam-lhe a paternidade.

Em despeito de todos estes azares do tempo e da fortuna, nas Rimas de Luís de Camões há ainda muito de tudo: todos os géneros; todos os padrões; todos os gostos. Predomina o bucólico e o erótico, mas não falta a peça de humor e de sarcasmo. Pois que atravessou o inferno terrestre, devia ter deixado também a sua obra maldita. Mas se deixou, perdeu-se na quase totalidade.»

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«Juromenha que andou, já depois de Faria e Sousa, a apanhar quantos argalhos diziam respeito a Camões, descobriu uma quadra do poeta Chiado que parece assentar-lhe, se o apodo de Trinca-fortes é com ele:

Luísa, tu te avisa 

      Que tais melões lhe não dês,

      Porque esse que aí vês,

      Trinca-fortes, mala guisa.

«Decerto há aqui um sainete aos melões que a regateira expunha, não apenas aos que imaginava o pudibundo Juromenha e com ele outros, por congruência a incorporar na Constelação Celestial das Onze Mil Virgens, mas aos seios da mesma, termo já corrente na gíria da época pelo que sugerem de análogo na redondeza e no alor. Do mesmo género que essa outra metáfora, do mais requintado culto, patriotismo, os melões da quadra de Chiado representavam um certame em que por certo havia como prémio mais que o fruto das hortas. O próprio Camões abona esta interpretação com uma passagem dos Lusíadas:

Os fermosos limões, ali cheirando, 

      Estão virgíneas tetas imitando.

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«Esta versalhada brava deixa adivinhar o que seria a vida de taverna e de alcouce de Chiado e dos seus amigos. Lisboa pululava destas casas de degradação, e da sua fauna própria em despeito das penalidades da lei:»

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(continua)