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16.cap

(continuação)

«Aventuras do Trinca-Fortes. O suco ácido de três cartas dum Camões bargante e rascoeiro. Rufiões e gente de má nota. Algozarias. Um homem do Renascimento, cabeça nos astros, pés no lodo.»

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«Pelo que se depreende das Cartas, Luís de Camões fazia parte dum bando que se afrontava com outros em vielas e alcouces a favor das trevas da noite. Bando numeroso. De passagem alude ao mandato de prisão que teria sido passado contra dezoito dos componentes, o que se prova haver-se tornado a hoste fautora de alta e estrondosa arruaça.

No bando havia assentado praça toda a espécie de gente: fidalgos da mais extreme linhagem e cavalariços das várias alquilarias que exploravam uma indústria em que eram mais os bardinos que as moscas. De envolta lá se via um ou outro de cabeça louca, como Camões, que tinham o mérito de enramalhetar com sua chibança e impetuosos verdores a matula dos valdevinos.»

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«Das três (cartas) se pode inferir com sólida certeza o que foi a existência do poeta naquele transcurso da adolescência para a maturidade. A todas as dissipações deu largas velas. Enterrou os dentes na maçã e algum bocado da polpa estaria podrido. Que o sinédrio dos prudomens deste século o julgue e condene. Raciocinando bem, Luís de Camões cumpriu com as suas obrigações de filho do Renascimento. Esta palavra, mesmo na parvalheira de Portugal, não representa nenhuma abstracção da História. Antes, pelo contrário, significa não só a força como o próprio acto de expansibilidade que se exerceu no mundo da física e das ideias depois do pousio medieval.

Ainda bem, direi eu, que Luís de Camões saboreou com todas as papilas dos sentidos as coisas boas, defesas ou permitidas da vida. Beijou muita boca e de toda a espécie de mulheres, desde as galdérias do Mal-Cozinhado às sécias virtuosas. Fraguou com todos os homens, desde os bargantes das comédias e da fauna larvar da Lisboa nocturna aos homens de saber e de recto juízo como Garcia de Orta e o Conde de Redondo. Só assim podia ser o poeta de sopro universalista e de alma multímoda e eterna que é.

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