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Jun25
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
Manuel Pinto


«De volta à capital. Alista-se na milícia do Oriente. Ignora-se porque desiste. Lisboa quinhentista dos rufiões e loureiras. Locais de ribaldaria. O Mal-Cozinhado e a sua fauna. Arruaça Nocturna.»



Tudo leva a supor que Luís de Camões entrara após o regresso de África no período tempestuoso da vida. Morava com os pais à Mouraria e os seus réditos deviam ser tudo o que há de mais falível. É curioso que o conspícuo Storck, cidadão da terra que sempre professou um culto estrénuo pela nobreza de sangue e se esmera em trazer o poeta pelo Paço e pelas casas ilustres, que o nomeia aio aos vinte anos de D. António de Noronha, um jovem prodígio, escreva referindo-se à sua estadia em África: É possível que o poeta ganhasse, além do soldo, alguns tostões com cópias e outros serviços de pena.
É possível. Certo que não ganhava pré. Os degredados, era taxativo por lei, serviam à sua custa.

«Camões teria sido em Lisboa destes escreventes públicos ou exercido esta actividade em casa pelo facto da sua função revestir maior amplitude, podendo estender-se a qualquer produto em verso que lhe encomendassem, como já aventamos a hipótese?»
...

«Segundo cartas suas, vindas a lume em nossos dias, escritas de Lisboa -- e de que a carta da Índia não é mais que o corolário, ou página sucessória, como num folhetim de jornal o segundo roda-pé é a continuação do primeiro e sua derivante, e assim até final --, Luís de Camões desbaratara os melhores anos da mocidade nos meios menos recomendáveis da Lisboa libertina e desordeira.
Essas três cartas, de género íntimo, constituem porventura o documento mais revelador que se conhece sobre a existência do poeta.»

«Acontece ainda estarem todas elas, em boa proporção, inçadas de modismos que perderam a voga, vocábulos obsoletos, termos e frases de gíria cabalística de todo, até locuções familiares de curso muito pessoal ou efémero. Recobre a tudo um véu de obscuridade voluntária, bem compreensível como se trate de confiar a uma missiva a notícia de factos, cuja natureza impunha certas reservas. Daí esse tom reticente, meias palavras, dizeres de duplo senso, que as tornam ruins de se lhes meter o dente, para empregar a expressão dos estudantes de Horácio a contas com as Odes. Que para o correspondente de Camões tudo aquilo fosse linfa translúcida, decerto! Mas a mesma homogeneidade de texto, sibilino ou velado por igual, vem em reforço da fiança que temos de dar ao epistológrafo das cartas como sendo único.»
(continua)
publicado às 21:00