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Jun25
LUÍS DE CAMÕES : [ n. (1524 ou 1525) — f. (1579 ou 1580) ]
Manuel Pinto

(n. 1524 ou 25 — f. 1579 ou 80)




«Morte de Luis de Camões. Sin tener una savana...»
«Neste tempo lhe sobreveio uma larga enfermidade, que lhe serviu de se aparelhar para a morte, a qual ele trazia tão presente que até nas cartas jocosas falava muito de siso nela, como se vê bem das que andam impressas nas suas Rimas. Acrescentou-se-lhe este mal com o sentimento da morte de E!-rei D Sebastião, a quem tinha intentado celebrar em outro heróico poema, se a ambos durara a vida e melhor fortuna. Com esta e outras moléstias se lhe foi agravando a enfermidade até o ano de 1579, no qual faleceu. Estava neste tempo em tanta pobreza que da casa de D. Francisco de Portugal lhe mandaram o lençol em que o amortalharam, e assim foi sepultado na igreja de Santa Ana — onde se acha hoje o coro das religiosas — sem letreiro ou campa alguma que mostrasse o lugar da sepultura. Assim escreveu em tão simples e empolgante linguagem Manuel Severim de Faria o drama da paixão, miséria e morte do poeta por excelência de Portugal.
À volta deste fim confrangedor, as variantes dos diversos biógrafos são como tintas gradativas que podem realçar, mas não alteram o fundo do painel.»
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«Faleceu Luís de Camões em casa própria — casa humilde lhe chama Frei Francisco de Santo Agostinho Macedo, simpático tradutor dos Lusíadas para latim, embora um latim mais córneo que o falado pelos Curiáceos -- junto ao Arco de Sant' Ana ou no hospital «em pura pobreza», como consta duma nota manuscrita, que o Morgado de Mateus tirou do exemplar dos Lusíadas dum tal Lord Holland. Essa nota, do punho dum pretenso monge carmelita de Guadalajara, Frei Joseph Índio, rezava assim: Que cosa mas lastimosa que ver um tan grande ingenio mal logrado! Yo lo bi morir en un hospital de Lisboa, sin tener una savana con que cobrirse despues de aver triunfado en la India Oriental, de aver navegado 5500 leguas por mar : que aviso tan grande para los que de noche y de dia se cançan estudiando sin provecho como la araña en urdir tellas para cazar moscas!
Se houvéssemos de aquilatar da veracidade do testemunho pelo rigor ortográfico, teríamos de vazar esta citação na carroça que passa às portas e leva toda a espécie de ciscalhada. Ao gadanho de trapeiro de Teófilo iam dar estas miuçalhas, por vezes desconcertadoras.
Mas não tem importância de maior saber se Luís de Camões morreu no albergue dos pobres e lázaros, se no seu quartel, velado apenas pela mãe com a candeia a extinguir-se por faltar de todo o azeite na almotolia. Gregos e troianos são concordes em que morreu à hora em que abria falência a nação, podre como uma alheira, atufada de especiarias, que tombou para uma cloaca.
À volta do morto só não se condensou esse espesso silêncio, próprio das pátrias decaídas, que dificilmente se rompe, porque os Lusíadas saíram em Espanha, na mesma data de 1580, em duas versões distintas castelhanas. Compreende-se. Filipe II empenhava-se em conciliar por todas as formas as boas graças dos portugueses. A corte de Sto. Isidro descerrava de par em par as portas aos fidalgos lusitanos, e ele, como sabia que os habitantes eram de seu natural orgulhosos e pouco sofridos, esforçou-se por que se não visse na gerência dos negócios do país anexado a mão espanhola. Ao mesmo tempo não houve voto que lhe subministrassem, emitido por município ou corporação, que não procurasse deferir. Não admira. Antes de mais nada, estava no seu programa realizar a união política e espiritual de Portugal com Castela; a outra, obtida pela força das armas, estava feita, mas tendo sido a mais fácil talvez por isso mesmo deixasse de ser a mais operante. Daí haver o direito de supor que um livro de suma bizarria e exaltamento nacional, tanto mais grato quanto a hora era de humilhação e de luto, Filipe, ou os seus ministros por ele, o acolhessem pressurosamente, dispensando-lhe o máximo favor.»
publicado às 13:52