

(continuação)
«Camões em Ceuta. Duas cartas de putativa paternidade camoniana. Estado de alma dum desterrado. Inconformação. Para válvula da vergonha o vitupério. Lágrimas e desespero. Fome. O degradado 'nom avera soldo nem mãtimento'.»




«Perde um olho na batalha. Dignidade no infortúnio. Rectificação dum sainete que não tinha graça nenhuma.»
Em África, não se sabe como, porque o poeta, atento a traçar a crónica da sua natureza subjectiva, é omisso quanto a dar informes da vida material, perdeu um dos olhos. Diz Faria e Sousa que foi numa peleja naval, o que é menos provável do que numa das infinitas escaramuças que os portugueses travavam com os mouros, por bizarria, arrogância e até desfastio, escancarando as portas e saindo a flostriar no alfoz.

Esta reserva ou esta resignação física é um dos aspectos trágicos que mais comovem na vida deste pobre grande homem infortunado. Onde um quidam se desentranharia em lamentos, ele mantém uma serenidade augusta. Dir-se-ia que altaneiramente aceitou o sacrifício em prol de uma causa muito nobre, ou que filosoficamente sabe quanto todos os bens, a começar pelos dotes corpóreos, não são mais que passageiras manifestações que em breve se diluirão em cinza e nada.

Luís de Camões regressou a Lisboa em 1551, purgada a pena, sem amigos, sem futuro, deformado pelo aleijão. Reforma para os inválidos, a mais insignificante pensão de guerra eram coisas que não havia. Nada mais lógico do que nutrir o propósito de alistar-se como voluntário da Índia. O Oriente devorara todos os homens sãos e perfeitos. Já não havia ensejo para seleccionar os combatentes, partindo do vigor do braço e do arcaboiço. Sob o prisma moral, não se fala. Iam buscar-se os presos aos cárceres para servir tanto nas chusmas como na milícia ordinária.
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