
«O Cleto puxou-lhe por uma perna e, logo a seguir, pespegou-lhe um pontapé no bandulho a título piedoso de sondagem. À Joana, que chorincava, disse:
-- Chorar mas é por uma alma cristã, mulher! Andava a cair de velho.
-- Coitadinho, era um borrego de mansidade. Fartou-se de andar connosco às cavaleiras e de nos ajudar a ganhar o pão!
O José Cleto meteu-lhe a faca ao jarrete. E ela foi pensando nos bons tempos, que não tornam mais, quando moça e bonita, requestada dos fidalgos, aparecia na vila montada para uma banda, à amazona, na garupa nédia do cavalo.
-- Já nem os ciganos lhe pegavam; estava a dar o cadilho! -- proferiu Cleto enquanto lhe esticava o pernil para o Zé esfolar. -- Se o deitamos à margem, passava o seu mau quarto de hora com os lobos. Tenho coração; foi melhor assim. De resto, a pele sempre rende uns patacos vendida aos samarreiros...
-- Já lhe disse! -- obtemperou o filho. -- A pele é para o bombo.
-- Qual bombo ou qual diabo?...
-- Sim, senhor, para o bombo! De cabra rebentam com duas maçanetadas e este ano a rusga vai à Lapa e queremos-lhe zurrar.
Ao ver o ventre imundo do cavalo, esfaqueado por mão inexperiente, Joana foi-se dali cheia de nojo e anuviada.»