Artur Maciel* A visão que tenho durante todas as voltas pra casa é a de perdizes e pompeia pela ponte da Sumaré. Um horizonte lindo que deixa qualquer um namorando. Sozinho. Vejo suas inúmeras luzes. Centenas de vezes passei lá e, em algumas, aproveitei a vista com Simonal. De vez em quando decido atravessar a ponte a pé. Oitenta metros de um ponto ao outro. Absorver aquela vista lentamente muda o senso de profundidade, a iluminação é longínqua, o vale, mais profundo. Com a altura de trinta metros, o lugar também é o favorito para quem faz bungee jump no ápice da noite de sexta. Uma terça feira como inúmeras outras, suado de trabalho e exausto de calor, caminho pro ponto de sempre, pra vista de sempre. No chão um case de bilhete único verde penso em pegar, mas qual a necessidade ? Chego no lugar tradicional. Olho a hora e espero o ônibus. Ali um cara de cabelos longos mal arrumados, de roupas largas, e um skate. Ele passa por mim, desengonçado, eu desvio. Por um instante o encaro: os olhos dizem muito de uma pessoa. Ele estava focado, mas não olhou para nada. Ignoro. Rio para o homem trajado de trabalhador casual, sentado no ponto, afirmo algo, o homem sobe em seu ônibus e eu no meu. Olho na janela e vejo o skate apoiado no guarda corpo da ponte, uma das pernas em cima do corrimão, em direção ao vão da Sumaré. O braço apoiado em pose olímpica, o cabelo ainda parado. Aviso do pulo pro motorista, mas ele ri. Me acalma, diz que se ele pular aparece no noticiário – e nem pra se preocupar, se é isso que ele queria, já foi. Por um instante, seria essa a banalização da morte ou um esquecimento da vida? Me viro para o cobrador, busco algo para me afirmar, ele sorri como desculpa. Não acho. Desculpe a todos. eu liguei, desliguei na auto-pressão, me sentei e religuei. 3 dígitos, e um suspiro profundo. Boa Noite. Boa Noite, eu vi alguém tentando se jogar da Ponte da Sumaré. Viu como a pessoa era ? Um homem, descabelado e de skate na mão. Onde ? Sim, na Capital. Ativei o corpo de bombeiros, alguém chegará lá, algo a acrescentar ? Espero que ele esteja bem. Obrigado por ligar. Os instantes mal passam. Chego no ponto e escuto o telefone vibrar, já sei quem é. Atendo e desligo no afobamento. Ligo. Boa Noite -Repito a canção (Paranoia de estar em ligação com eles e alguém me assaltar). Desligo. Me ligam de novo. Atendo e outra voz diz. Olá, Alô? Chegamos lá, nada a reportar, boa noite. O subconsciente toma conta, odeio seu pessimismo. Será que amanhã vou vê-lo no noticiário ? Deveria ter ligado ? Eles agora sabem meu número, sou jornalista, e crítico a polícia. Eles não deveriam saber! Deveriam ? Será que resolveu algo ? Eles chegaram e já foi e todos perderam seu tempo? Eu fui o último que o viu com vida ? Chego em casa, ô de casa a todos, sento e começo escrever este texto. Paro. Decido me banhar, decido teclar, desisto e vou jantar. Mando uma crônica a uma amiga e penso no dia. Já pensei muito sobre; já pensei e adiantei, fiz piada com o pensamento, já fiz os outros preocupados se eu tinha pensado e agido; Eu parei de pensar sobre , parei há uns anos. Me preocupa quem pensa sobre. Pensar tanto sobre. pensa no resto. Penso no pensamento. Penso que não. *É estudante de jornalismo da PUC-SP