Na minha coluna no Obras Inquietas da semana passada, abordei um quadro de um pintor flamengo, Jacobus Vrel, uma obra mais repleta de perguntas do que de respostas. Detalhe interessante desse artista é que, nas cenas de interiores, ele costumava posicionar as mulheres de costas para o observador, como se tivessem vergonha de mostrar o seu rosto.
No meu texto, a mulher olha o reflexo, mas talvez seja o reflexo que esteja lhe contemplando.
Boa leitura.
“Mulher junto à janela acenando para uma menina” (1650), Jacobus Vrel

Atrás de cada espelho, uma criatura espreita a nossa vida com seus olhos de líquido cristal. Ela é formada por todas as nossas desilusões, por palavras não ditas no momento certo, por vestígios de pensamentos e de pecados que insistem em infestar a mente assim que relaxamos. Ser humano é impedir o descontrole do medo, esse cavalo selvagem que insiste em tomar as próprias rédeas e nos conduzir através de paragens repletas de desesperos; ser humano é viver em constate estado de agonia e de maravilha. No silêncio da sua casa, a mulher olha a imagem se formando no outro lado do reflexo. Lá fora, a noite se espalha pelo mundo em rajadas de vento negro; dentro, a sala vazia atesta a solidão da sua ocupante. Não sabemos quais são as suas feições, somente podemos ver o tímido reflexo que surge das profundezas do vidro. Dentro de cada pessoa, existem todos os seus tempos de vida: passado e futuro moram dentro do presente, e não espanta que a mulher esteja olhando a sombra da menina que um dia foi ou o fantasma da filha que nunca terá. Os espelhos são cruéis, e escarnecem o dia todo dos nossos medos. Olhar para o reflexo é olhar para o abismo que esconde as possibilidades e sonhos que precisamos sepultar por existir. Quando a mulher olhou para o espelho, o espelho olhou para a alma dela. Na imagem gelada revelada pelo vidro, o cadáver sonha com o sabor da nossa carne.
Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2017/02/05/19-mulher-junto-a-janela-acenando-para-uma-menina-1650-jacobus-vrel/
Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo