Acabo de receber uma interessante possibilidade de interpretação do conto “O homem despedaçado”, que dá título (e espinha dorsal) para o livro que escrevi.
Meu amigo Matheus Scozziero – que se auto-intitula “péssimo leitor”, sabe-se lá o que significa este título – disse ter certeza que o narrador do conto estava falando consigo mesmo no espelho. Ou seja, o amigo do narrador e seu anfitrião no jantar que inicia o conto teria sido criado pelo próprio narrador (ou, em última análise, pelo espelho). A chave para o surgimento do mistério, o agente catalisador que forçou o narrador a sair da ignorância e descobrir o segredo dos homens infinitos, estaria o tempo inteiro na sua própria loucura, de ver a si mesmo diante do espelho e imaginar dois.
Olhando por este ângulo, este amigo teria sido o primeiro homem a ser despedaçado, e dele saiu uma outra pessoa, tão diferente que possibilitava a interação, diálogos e até uma convivência amistosa.
Inquieta saber que a exposição demasiada diante de espelhos pode enlouquecer uma pessoa e fragmentar a sua psiquê.
Esta possibilidade de leitura trouxe à minha recordação o quadro de Paul Delvaux, “Woman in a cave”. Em sala de aparência decadente, uma mulher vestida se contempla no espelho; a imagem refletida é dela nua, na mesma sala, mas com uma janela atrás revelando uma casa de campo espreitada por árvores (gosto de ver a árvore que se destaca, parece um general passando instruções para as suas tropas). Existe uma evidente disparidade entre a imagem revelada pelo espelho e a realidade. O espelho revela aquilo que a pessoa quer ver.
Será possível que os espelhos estejam nos mentindo o tempo inteiro?


Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo