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Fev22

Maria do Rosário Pedreira

A luz é clara e este livro iluminado ganhou o Man Booker International Prize no ano passado. Mas é também um livro negro por causa da temática (já lá vamos). Confesso que fiquei com pena de que o «meu» candidato, o livro de uma georgiana que vou publicar em Março (fiquem atentos!) não tenha arrecadado o prémio, mas, claro, as opiniões do júri são soberanas e desta feita o galardão foi para uma tradução do francês. O autor chama-se David Diop, nasceu em França e cresceu no Senegal, e é senegalês o protagonista do seu De noite Todo o Sangue É Negro (no original, Frère d'âme), que já ganhara em França o Gouncourt des Lycéens e outros prémios. Trata-se de um livro sobre um soldado que, durante a Primeira Guerra Mundial, não consegue salvar o melhor amigo (o seu «mais do que irmão») e tão-pouco o consegue matar quando ele, agozinante, lho pede várias vezes. A partir dessa morte e do seu arrependimento, adquire comportamentos violentos extremos (como o de cortar as mãos aos alemães que mata e trazê-las para a trincheira), acabando por desencadear medo e desconfiança quer nos seus companheiros brancos, quer nos «chocolate», um termo utlizado para nomear os senegaleses que combatem ao lado dos franceses, e ser posto na retaguarda durante uns tempos. A novela tem por vezes a tonalidade de uma oração, apesar do realismo de algumas descrições, e contém em si mesma uma espécie de «eco» permanente, com muitas repetições de expressões, o que me fez pensar que, em termos de tradução para inglês, não representou decerto uma dificuldade por aí além (isto porque o Booker Prize International premeia livros traduzidos). Mas é bonito, sério e vale a pena ler.