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| Fotografia da minha autoria |
Tema: Um livro de capa azul
Avisos de Conteúdo: Linguagem Explícita, Morte,
Menção a Doenças Terminais, Violência
A tonalidade do nosso imenso céu azul norteia vidas que desconhecemos, realidades que, perante um olhar atento, escondem camadas indecifráveis, como se a solidão fosse um dialeto comum e intransponível. Por isso, unidos através de uma série de fios invisíveis, os trajetos vão-se cruzando sem que o percebamos, criando narrativas distintas, por vezes deconexas, como as que encontramos no livro de Rui Cardoso Martins.
UMA COMÉDIA HUMANA
O Osso da Borboleta permite-nos conhecer uma sociedade tipicamente portuguesa: conformada com a ideia de fracasso, mas sempre predisposta a sobreviver, a procurar por maneiras de contornar as adversidades. É por esse motivo que detetamos um tom de desgraça transversal a toda a história e aos seus intervenientes.
«É como acho que devem ser os pesadelos, saberem com educação
retirar-se sozinhos, mostrarem respeito pela cabeça alucinada que os inventou»
O início pode ser um pouco confuso, porque não é evidente o propósito do narrador, nem aquilo que podemos esperar do enredo. No entanto, o seu relato é tão honesto e vulnerável, que somos atraídos pelo seu desnorte, pelos seus pensamentos sobre tudo e sobre nada e pela necessidade de permanecer oculto. Oscilando entre o passado e o presente, sem perspetivas de futuro, há uma profecia que nos parece encaminhar para o abismo.
«Há conversas de onde não se regressa»
Este romance, que é feito de amor, ruína, miséria, infelicidade e oportunidades perdidas, transporta-nos para um ambiente surreal, mas igualmente cómico. Afinal, «apesar de tudo, o mal pode morrer e a vida continuar».
ENCONTRAR UM LUGAR NO MUNDO
A beleza desta obra encontra-se nos detalhes, no modo como as personagens se cruzam e vão revelando o que as move, o que as afasta, o que as inquieta. Unidas pela tragédia, torna-se evidente que, se algo tiver de correr mal, há-de seguir esse curso. Porém, tal como uma crisálida, saem do seu casulo para a metamorfose.
«- Nunca te metas num sítio de onde não possas sair sozinho»
O Osso da Borboleta é fascinante na sua estranheza. Desconstrói a solidão como se fosse um destino. E mostra bem a tentativa do ser humano em encontrar o seu lugar no mundo, garantindo que lhe pertence.
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