04

Jan24

Maria do Rosário Pedreira

Os nefelibatas (palavra sublime para falar dos que andam sempre com a cabeça nas nuvens) raramente olham para o chão que pisam. Mas, por acaso, um cientista que dedicou toda a sua vida a estudar as estrelas  (o canadiano recentemente falecido Hubert Reeves) sempre gostou muito de olhar o que crescia no solo dos campos e florestas. Quando veio a Portugal, nos anos 1990, eu trabalhava na editora que o publicava cá (livros como A Hora do Deslumbramento, Um Pouco mais de Azul...) e tive, por isso, a sorte de o acompanhar numa visita à cidade, que incluiu sobretudo um longo périplo pelo Jardim Botânico. Eu tinha um fraquinho não exactamente por plantas, mas pelos seus nomes; e admirava sinceramente quem olhava para um caule ou um botão e sabia logo a que planta pertencia. Hoje, mesmo sendo urbaníssima, sei já qualquer coisa de árvores, mas agora vou ficar também a saber de flores com Hoje Vi Uma Flor Selvagem, do senhor Reeves, que é uma espécie de guia de flores silvestres, dessas em que vale a pena reparar quando as vemos iluminar campos e caminhos: falo, por exemplo, dos jarros, que estão por todo o lado, das azedas, de miosótis ou outras florinhas conhecidas de todos, mas também de espécies com nomes incríveis como «tasneirinha jacobeia», «assobio», «verónica-da-pérsia» ou «pantufas do Menino Jesus», todas acompanhadas por fotografias a cores e de um texto informativo belíssimo. Leiam agora e, na Primavera, divirtam-se a identificar as flores em passeios pela natureza (enquanto as alterações climáticas não derem cabo delas). Grande Hubert Reeves, uma pessoa que fala das coisas com tanto amor que as páginas dos seus livros se viram com imensa rapidez.