Adam Smith – A riqueza das nações Livro II – Semana VI
Obra A Riqueza das Nações
Livro Livro II
Autor Adam Smith
Data 1776
Semana VI
Capítulo Capítulo V – Dos diferentes empregos de Capitais
Trechos […] O capital, portanto , que pode ser empregado nesse comércio não pode ultrapassar aquilo que é suficiente aquilo que é suficiente para comprar essa quantidade. Se esse capital for dividido entre dois diferentes donos de mercearias, sua concorrência forçará ambos a vender mais barato do que se ele estivesse nas mãos apenas de um deles; e se fosse dividido entre 20, sua concorrência seria ainda maior, e a chance de se unirem, no intuito de aumentar o preço, seria ainda menor. Sua concorrência pode, talvez, quebrar alguns deles, mas cuidar disso é função das partes envolvidas, e pode perfeitamente ser deixado à sua descrição. Ela jamais pode prejudicar o consumidor ou o produtor; ao contrário, deve ajudar os varejistas a vender mais barato e a comprar mais caro do que se todo o comércio fosse monopolizado por uma ou duas pessoas.
[…] Quando o capital de qualquer país não é suficiente para todos esses três propósitos, quanto maior a parte dele empregada na agricultura, maior será a quantidade de trabalho produtivo que ele impulsiona nesse país; assim também acontecerá com o valor que seu emprego agrega à produção anual da terra e do trabalho da sociedade. Depois da agricultura, o capital empregado nas manufaturas impulsiona a maior quantidade de trabalho produtivo, e agrega o maior valor na produção anual. Aquele que é empregado no comércio de exportação causa o menor efeito de qualquer um dos três.
O país, na verdade, que não tem capital suficiente para todos esses três propósitos, ainda não atingiu aquele grau de opulência para o qual parece naturalmente destinado. Tentar, porém, de maneira prematura e com um capital insuficiente, realizar todos os três não é certamente o caminho mais curto para uma sociedade, como também não seria para um indivíduo , adquirir um valor suficiente. O capital de todos os indivíduos de uma nação aumenta, da mesma forma que o de uma única pessoa, por seu contínuo acúmulo e investimento daquilo que eles economizam de seu rendimento. Ele possivelmente aumentará ainda de forma mais rápida, portanto, quando empregado de maneira que proporcione o maior rendimento para todos os habitantes do país é necessariamente proporcional ao valor da produção anual de sua terra e de seu trabalho.
[…] O percurso da prosperidade humana, de fato, parece dificilmente ter sido tão longo a ponto de possibilitar a qualquer grande país adquirir capital suficiente para todos esses três propósitos; a menos que, talvez, acreditemos nos maravilhosos relatos da riqueza e cultivo da China, ou dos povos antigos do Egito e do antigo estado do Industão. Mesmo esses três países, os mais ricos, segundo todos os relatos, que já existiram no mundo são principalmente famosos por sua superioridade n agricultura e nas manufaturas. Eles não parecem ter sido eminentes por seu comércio estrangeiro. Os antigos egípcios tinham uma supersticiosa antipatia pelo mar; uma superstição quase da mesma espécie prevalece entre os indianos; e os chineses nunca se sobressaíssem no comércio estrangeiro. A maior parte da produção excedente de todos esses três países parece ter sido sempre exportada por estrangeiros, que davam em troca por ela alguma outra coisa pela qual encontravam uma demanda ali, geralmente ouro e prata.
[…] Seja qual for a mercadoria estrangeira com a qual os bens estrangeiros para o consumo interno são comprados, ela não pode causar uma diferença tão grande na natureza do comércio nem no estímulo e apoio que pode oferecer ao trabalho produtivo do país com que é realizado. Se os bens forem comprados com o ouro do Brasil, por exemplo, ou com a prata do Peru, esse ouro e essa prata, assim como o tabaco da Virgínia, devem ter sido comprados com algo que foi produzido da indústria do país, ou que tenha sido comprado com alguma outra coisa dessa mesma indústria. Portanto, pelo que sabemos do trabalho produtivo do país, o comércio externo de consumo que é realizado por meio do ouro e da prata tem todas as vantagens e inconveniências de qualquer outro comércio estrangeiro de consumo igualmente indireto, e irá repor tão rapidamente, ou tão lentamente, o capital que é imediatamente empregado no sustento do trabalho produtivo.
[…] Quando o estoque de capital de qualquer país é aumentado a ponto de não poder ser totalmente empregado no abastecimento do consumo e na sustentação do trabalho produtivo de um determinado país, sua parte excedente naturalmente acaba sendo usada no comércio de transporte e é empregada na realização dos mesmos ofícios para outros países. O comércio de transporte é o efeito e o sintoma natural da grande riqueza nacional, mas ele não parece ser sua causa natural. Aqueles estadistas que se mostram dispostos a favorecê-lo com estímulos particulares parecem ter confundido o efeito e o sintoma da causa. A Holanda, em proporção à extensão da terra e do número de seus habitantes, sem dúvida o país mais rico na Europa, possui a maior participação do comércio de transporte da Europa. A Inglaterra, talvez o segundo país mais rico da Europa, também deve possuir uma participação considerável desse mercado, apesar de que aquilo que consideramos o comércio de transporte da Inglaterra seja, talvez, com frequência não mais do que um comércio externo indireto de consumo. Esses são, sem dúvida, os comércios que transportam as mercadorias das Índias Oriental e Ocidental e da América para os diferentes mercados europeus. Essas mercadorias são geralmente compradas de modo imediato com a produção da indústria britânica, ou com alguma outra coisa adquirida com essa produção, e os retornos finais desses comércios normalmente são usados ou consumidos na Grã-Bretanha. O comércio que é realizado em navios britânicos entre os diferentes portos do Mediterrâneo, e alguns negócios da mesma espécie realizados por mercadores britânicos entre os diferentes portos da Índia, compõem, talvez, os principais ramos daquilo que é o verdadeiro comércio de transporte da Grã-Bretanha.
[…] Projetores, de fato, em todos os cantos do continente , conseguiram, nesses poucos anos, encantar o público com os mais surpreendentes relatos acerca dos lucros obtidos pelo cultivo e pela melhoria da terra. Sem entrarmos em qualquer discussão específica a respeito de seus cálculos, uma observação bastante simples pode nos mostrar que o resultado deles deve ser falso. Vemos todos os dias as mais fantásticas fortunas que foram obtidas no decorrer de uma vida por meio do comércio e das manufaturas, geralmente a partir de um capital muito pequeno , às vezes, inclusive, de pessoas sem capital algum. Um único exemplo de uma fortuna assim, adquirida pela agricultura no mesmo tempo, e de um capital pequeno, não aconteceu na Europa durante o transcorrer do século atual. Em todos os grandes países da Europa, porém, muitas terras boas ainda permanecem não cultivadas, e a maior parte das que são cultivadas está longe de ser desenvolvida ao máximo de sua capacidade. A agricultura, portanto, é, quase em toda a parte, capaz de absorver um capital muito maior do que já foi investido nela. Que circunstâncias na política da Europa ofereceram aos comércios realizados nas cidades uma vantagem tão grande em relação aos negócios realizados no campo, a ponto de pessoas particulares geralmente acreditarem ser mais vantajoso empregar seus capitais nos mais distantes comércios de transporte da Ásia e da América do que na melhoria e no cultivo dos campos mais férteis em sua própria vizinhança, é o que tentarei explicar com detalhes nos dois livros seguintes.