Adam Smith – A Riqueza das Nações Livro I (VI)

Obra A Riqueza das   Nações
Livro Livro I
Autor Adam Smith
Data 1776
Semana VI
Capítulo Capítulo XI – Da renda da Terra
Trechos […] A   renda da terra, portanto, considerada como preço pago pelo uso da terra, é   naturalmente, um preço do monopólio. Não é, de modo algum, proporcional que o   proprietário pode ter aplicado no aperfeiçoamento da terra, ou ao que pode   conseguir, mas ao que o lavrador pode oferecer.
  Parte 1 – – Do produto da Terra que   sempre fornece a renda
  Como os   homens, e também todos os outros animais, naturalmente se multiplicam em   proporção aos meios de subsistência, a comida está sempre em maior ou menor   demanda. Ela pode sempre comprar ou ordenar uma quantidade maior ou menor de   trabalho, e sempre podemos encontrar alguém que esteja disposto a fazer algo   para obtê-la. A quantidade de trabalho, na verdade, que ela pode comprar não   é sempre igual ao que pode manter, se administrada da forma mais econômica,   por conta dos altos salários que por vezes são pagos pelo trabalho, mas pode   sempre comprar essa quantidade de trabalho e mantê-la de acordo com a cotação   que é mantida para aquela espécie de trabalho na região. Mas a terra, em   quase qualquer situação, produz uma quantidade maior de comida do que é   suficiente para manter todo o trabalho necessário para o seu transporte até o   mercado da maneira mais liberal pela qual se queira manter esse trabalho. O   excesso também é sempre maior do que o suficiente para compensar o capital   empregado no trabalho, junto com seus lucros. Algo, portanto, sempre resta   que seja oferecido como uma renda para o proprietário.
  […] A   renda da terra não varia somente com sua fertilidade, seja qual for seu   produto, mas com a situação, seja qual for sua fertilidade, seja qual for seu   produto, mas com a situação, seja qual for sua fertilidade. A terra da região   de uma cidade oferece uma renda maior do que a terra igualmente fértil em uma   parte distante do país.
  Apesar de   não custar mais barato para cultivar uma do que a outra, sempre irá custar   mais transportar o produto da terra distante até o mercado. Uma quantidade   maior de trabalho, portanto, deve ser mantida, e o excesso, do qual é tirado   tanto o lucro do lavrador como a renda do proprietário, deve diminuir, mas em   partes remotas do país a taxa de lucros, como já foi mostrado, geralmente é   maior do que nas cercanias de uma grande cidade. Uma proporção menor desse   excedente diminuído, portanto, pertence ao proprietário.
  […] O   monopólio, além disso, é um grande inimigo da boa administração, o que nunca   pode ser universalmente estabelecido, senão em consequência daquela   competição livre e universal que força todos a recorrer a ela pelo bem da   autodefesa.
  […] Em   todos os grandes países, a maior parte das terras cultivadas é empregada na   produção de comida para os homens ou comida para o gado. Sua renda e lucro   regulam a renda e o lucro de todas as outras terras cultivadas. Se qualquer   produto em particular proporcionasse menos, a terra logo era transformada   para o cultivo de cereal ou de gado, se proporcionasse mais, uma parte das   terras de cereal ou de pasto passava a ser usada para aquela produção.
  […] A vantagem que o proprietário tira   dessas melhorias nunca parece ser maior do que aquilo que foi suficiente para   compensar a despesa original de executá-la. Na antiga produção agrícola,   depois dos vinhedos, uma horta bem regada parece ter sido a parte da lavoura   que se supõe ter fornecido  os produtos   mais valiosos, mas Demócrito, que escreveu a respeito do trabalho agrícola   cerca de 2 mil anos atrás, e que era considerado pelos antigos um dos pais da   arte, pensava que não agia sabiamente aquele que cercava uma horta. O lucro,   ele dizia, não compensaria o gasto de um muro de pedra, e tijolos (ele queria   dizer, eu suponho, tijolos endurecido ao sol) derretiam-se com a chuva e com   as tempestades de inverno, exigindo reparos contínuos.
  PARTE 2 – Do   produto da Terra que ás vezes proporciona renda, e outras não
  O alimento   humano parece ser o único produto da terra que, sem dúvida, sempre oferece   alguma renda ao proprietário. Outros tipos de produtos podem ou não agir   assim segundo diferentes circunstâncias.

Depois da   alimentação, o vestuário e a habitação sã as duas maiores necessidades da   humanidade.

  […] As peles dos animais maiores eram   os materiais originais do vestuário. Entre as nações de caçadores e pastores,   então, cujo alimento consiste em especial na carne desses animais, todo   homem, ao se alimentar, abastece-se dos materiais de mais roupas do que é   capaz de vestir. Se não existisse um comércio exterior, a maior parte delas   seria descartada como objetos sem valor. Ao que tudo indica, esse era o caso   da América do Norte onde caça é comum, antes de seu país ser descoberto pelos   europeus, com quem trocam seu acesso de peles por cobertores, armas de fogo e   conhaque, o que lhe confere um certo valor.
  […] O   homem rico não consome mais comida do que seu vizinho pobre. Em qualidade,   ela pode ser muito diferente, e sua seleção e preparo pode exigir mais   trabalho e arte, mas,  em quantidade,   ela é quase a mesma. No entanto, compare o palácio suntuoso e o enorme   guarda-roupa do primeiro com o barraco    e os poucos trapos do outro, e perceberá que a diferença entre suas   roupas, moradia e móveis domésticos é quase tão grande em quantidade quanto   em qualidade. O desejo da comida é limitado em todas as pessoas pela estreita   capacidade do estômago humano, mas o desejo das conveniências e dos   ornamentos de construção, roupas, utensílios domésticos e móveis parece não   ter limite. Aqueles, portanto, que possuem o controle de mais comida do que   podem de fato consumir, estão sempre dispostos a trocar o excesso, ou, o que   dá no mesmo, seu preço, por gratificações desse outro tipo. O que está além   de satisfazer o desejo limitado é dado para o    entretenimento daqueles desejos que não podem ser satisfeitos, mas   parecem ser realmente infinitos. Os pobres, para conseguir comida,   esforçam-se para satisfazer aqueles desejos dos ricos e, para conseguir o que   precisam com mais garantia, competem entre si no processo de baratear e   aperfeiçoar seu trabalho.
  […] O   preço da prata no Peru, ou a quantidade tanto de trabalho como dos outros   bens que ela compra lá, deve ter alguma influência em seu preço, não apenas   nas minas  de prata da Europa, mas   também nas da China. Após a descoberta das minas do Peru, as minas de prata da   Europa foram, ao menos a maioria, abandonadas. Seu valor foi tão reduzido que   sua produção não podia mais sustentar as despesas de seu processo, ou repor,   com lucro, a alimentação, o vestuário, a habitação e outras necessidades   consumidas na operação. Foi isso que aconteceu, também, nas minas de Cuba e   Santo Domingo, assim como nas antigas minas do Peru, após as descobertas   daquelas em Potosi.
  […] nas minas de prata do Peru,   dizem-nos Frezier e Ulloa, o proprietário quase sempre não cobra nada além do   empreendedor da mina, exceto que ele irá trabalhar  o minério em seu moinho, pagando-lhe o total   ordinário referente ao preço da moagem. Até 1736, na verdade, o imposto do   rei da Espanha totalizava um quinto da prata padrão, que até então podia ser   considerada como renda real da maior parte das minas de prata do Peru, as   mais ricas conhecidas no mundo. Se não houvesse nenhum imposto, essa fração   naturalmente pertenceria ao proprietário, e muitas minas que não foram   trabalhadas poderiam ter sido exploradas, porque não podiam arcar com esse   imposto.
  […] Tudo o que faz a fertilidade da   terra melhorar na produção de alimentos aumenta não apenas o valor das terras   aperfeiçoadas, mas contribui também para o aumento das melhorias de muitas   outras terras, criando uma nova demanda por sua produção. Essa abundância de   alimentos, de que, em consequência  do   aperfeiçoamento da terra, muitas pessoas dispõem além do que podem consumir,   é a grande causa da demanda dos metais e das pedras preciosas, bem como de   todas as demais conveniências e ornamentos de vestuário e habitação, móveis e   utensílios. A alimentação não apenas constitui a parte principal das riquezas   do mundo, mas é também a fartura de comida que garante a parte principal de   seu valor para muitos outros tipos de riquezas. Os habitantes pobres de Cuba   e Santo Domingo, quando foram descobertos pelos espanhóis , usavam pequenas   peças de ouro como ornamentos em seus cabelos e em outras partes de suas   roupas. Pareciam valorizar esses objetos da mesma forma que consideramos pequenas   pedras  comuns com alguma beleza   especial, e que acreditamos valer a pena separar por alguma razão, mas que   poderíamos dar para qualquer pessoa que as pedissem. Eles oferenciam-nas a   seus novos visitantes sempre que lhes pediam, sem parecer achar que estavam   oferecendo presentes valiosos. Ficavam suspresos ao observar o desejo dos   espanhóis para consegui-las, e não tinham noção alguma de que pudesse existir   um país em que muitas pessoas tivessem à sua disposição uma fartura tão   grande  de comida, algo tão escasso   entre eles, que por uma pequena quantia daquelas ninharias brilhantes ficavam   felizes em oferecer o suficiente para manter uma família inteira por muitos   anos. Se fossem capazes de compreender aquilo, o desejo dos espanhóis não os   teria compreendido.