Adam Smith – A Riqueza das Nações Livro I (III)

Obra A Riqueza das   Nações
Livro Livro I
Autor Adam Smith
Data 1776
Semana III
Capítulo Capítulo VII – Do Preço Natural e do Preço de Mercado das Mercadorias
Trechos […] Quando a quantidade de   qualquer bem que é levado ao mercado não condiz com a demanda efetiva, todos   aqueles que estão dispostos a pagar o valor total do arrendamento, dos   salários e do lucro, que devem ser pagos para que a mercadoria chegue até lá,   não poderão ser supridos com a quantidade que desejam. Além de apenas   desejarem algo, algumas pessoas estarão dispostas a oferecer mais. Assim, e   de modo imediato, uma competição se instala entre eles, e o preço de mercado   aumenta mais ou menos acima do preço natural, de acordo com a magnitude da   deficiência ou a riqueza e o capricho dos competidores, que passam a instigar   mais ou menos essa competição.
[…] Quando a quantidade   levada ao mercado excede a demanda efetiva, ela não pode ser toda vendida   para os que estão dispostos a pagar o valor total da renda, salários e lucro,   que têm de ser pagos para que cheguem até lá. Uma parte deve ser vendida para   os que estão dispostos a pagar menos, e o preço baixo que dão em troca pelo   produto deve reduzir o preço do todo. O preço do mercado irá afundar, mais ou   menos abaixo do preço natural, conforme a grandeza do excesso aumenta mais ou   menos a competição dos vendedores ou conforme lhes seja mais ou menos importante   conseguir prontamente a mercadoria.
[…] Quando a quantidade   levada ao mercado é apenas suficiente para suprir a demanda efetiva, e nada   mais que ela, o preço de mercado naturalmente passa a ser exatamente igual,   ou o mais próximo possível do preço natural. A quantidade total disponível   pode ser vendida por esse preço, e nada além dele. A competição de diferentes   negociantes obriga todos eles a aceitarem esse preço, mas não os obriga a   aceitar menos. A quantidade de toda mercadoria levada ao mercado naturalmente   se adapta à demanda efetiva.
[…] Um monopólio garantido a um indivíduo ou a uma empresa   comercial tem o mesmo efeito que um segredo no comércio ou nas manufaturas.   Os monopolistas, ao manterem o mercado constantemente desprovido, nunca   suprindo a demanda efetiva, vendem suas mercadorias muito além do preço   natural, e aumentam seus emolumentos, sejam eles salários ou lucros, muito   acima de sua variação natural.
  […] Essas elevações do preço   de mercado podem durar tanto quanto as políticas que lhes deram origem. O   preço de mercado de qualquer produto, embora possa continuar muito tempo   acima, raramente pode continuar muito tempo abaixo de seu preço natural.   Qualquer que tenha sido a parte paga abaixo da cotação natural, as pessoas   cujo interesse seja prejudicado sentem a perda de modo imediato, prontamente   impedindo que os valores da terra, do trabalho ou do capital sejam   empregados, para que a quantidade levada ao mercado, em pouco tempo, deixe de   ser mais do que suficiente para suprir a demanda efetiva. Seu preço de   mercado, portanto, logo aumenta o preço natural. Esse, ao menos, seria o caso   se houvesse a liberdade perfeita.
[…] Esse é o caso dos mesmos   estatutos de aprendizado e de leis corporativas que, quando uma manufatura   está prosperando, ela possibilita ao trabalhador a elevar seus salários bem   acima de sua cotação natural e que ás vezes obriga-o, quando esmorece, a   fazê-los baixar bastante. Como no primeiro caso, eles excluem muitas pessoas   de seu emprego;  no outro, excluem   delas muitos empregos. O efeito de tais regulamentações, no entanto, não é   tão durável para baixar os salários do trabalhador quanto para elevá-los   acima de sua cotação natural. Sua operação, em um sentido, pode se prolongar   por muitos anos, mas no outro pode durar não mais do que o tempo de vida de   alguns trabalhadores que foram criados para esse negócio na época de sua   prosperidade. Quando se vão, o número daqueles que são posteriormente   educados para seguir o ofício irá naturalmente se adaptar à demanda efetiva.   A política deve ser tão agressiva quanto a do Industão ou do antigo Egito   (onde todo homem estava ligado a um princípio religioso que o levava a seguir   a ocupação de seu pai, e era submetido ao mais terríveis sacrilégios se a   trocasse por outra), que para qualquer emprego, e por diversas gerações, pode   diminuir os salários do trabalho ou os lucros dos capitais abaixo de sua   cotação natural.
Capítulo Capítulo VIII – Dos Ganhos do Trabalho
Trechos A produção   de quase todos os demais trabalhos    está sujeita à mesma dedução de lucro. Em todas as artes e   manufaturas, a maior parte dos trabalhadores tem a necessidade de um patrão   para lhes adiantar os materiais de sua atividade, bem como seus ganhos e   manutenção, até que seja finalizado. Ele divide isso pela produção de seu   trabalho, ou pelo valor do total dos materiais usados, e essa divisão   constitui seu lucro.
[…] O   valor dos salários comuns do trabalho depende sempre do contrato feito entre   ambas as partes, cujos interesses nunca são os mesmos. Os trabalhadores   desejam ganhar o máximo possível, e os mestres, pagar o mínimo que   conseguirem. Os primeiros estão dispostos a se unirem para ganhar mais, e os   últimos, para diminuir os salários do trabalho […].
[…]   Raramente ouvimos falar das combinações de patrões, mas frequentemente ouvimos   falar das combinações dos empregados. Mas, quem quer que imagine que, por   isso, os patrões nunca fazem suas combinações, é tão desconhecedor do mundo   quanto desse assunto. Os patrões matem, sempre e em toda parte, uma espécie   de acordo tácito, porém constante e uniforme, de não elevar os salários do   trabalho acima de sua variação real. Violar esse acordo é, em toda a parte,   um ato muito impopular, e uma espécie de opróbrio para um patrão em meio a   seus vizinhos e pares. De fato, raramente ouvimos falar desse acordo, por ser   algo comum e, até podemos dizer, o estado natural das coisas, sobre o qual   não ouve falar. Os patrões também, ás vezes fazem acordos particulares para   baixar os valores dos salários do trabalho até mesmo abaixo dessa cotação.   Essas combinações são sempre conduzidas no silêncio mais absoluto e com a   máxima discrição, até que chega o momento de sua execução, e quando os   trabalhadores acabam cedendo, como fazem às vezes, sem resistência, apesar de   serem severamente atingidos por elas, pouco se ouve a esse respeito. Esses   acordos, porém, são frequentemente resistidos por um acordo contrário   defensivo dos trabalhadores, que também, às vezes sem nenhuma provocação de   qualquer tipo, fazem seus próprios acordos para elevar os preços de seu   trabalho. […] Para apressar uma decisão, sempre recorrem ao mais ruidoso   clamor e, às vezes, aos piores tipos de violência e ultraje. Sentem-se   desesperados, e agem com a loucura e a extravagância de um homem descontrolado,   que devem perecer à míngua ou amedrontar seus patrões para que concordem   imediatamente com suas exigências. Os patrões, nesses casos, ficam tão   clamorosos quanto a outra parte, e nunca deixam de gritar aos brados em busca   de assistência dos magistrados civis, além da execução rigorosa dessas leis   que foram promulgadas com tanta severidade contra os acordos dos subalternos,   trabalhadores e artesãos. Os operários, por sua vez, raramente tiram qualquer   vantagem da violência desses acordos tempestuosos, que, em parte pela   intervenção do magistrado civil, e em parte pela perseverança de seus   patrões, bem como pela necessidade que a maioria dos trabalhadores e submete   em nome de seu atual sustento, geralmente dão em nada, mas somente ao castigo   ou ruína dos líderes dos tumultos.
[…]   Quando em qualquer país, a demanda daqueles que vivem por salários,   trabalhadores, artesãos, servos de qualquer espécie, estiver aumentando   gradativamente; quando a cada ano se disponibiliza um número maior de   empregos para um número maior do que o empregado no ano anterior, os   trabalhadores não têm oportunidade de se unir para aumentar seus ganhos; a   escassez de mão de obra faz aumentar a concorrência entre os patrões, que   disputam uns com os outros para conseguir mais operários e, assim, de modo   voluntário, rompem o acordo natural de patrões de não aumentar os salários.
[…] A   demanda por aqueles que vivem de salários, portanto, irá necessariamente se   elevar com o aumento da renda e do capital de cada país, e provavelmente não   teria como aumentar sem ela. O aumento pelo capital é o aumento da riqueza   nacional. A demanda pelos assalariados, portanto, naturalmente aumenta com o   acréscimo da riqueza nacional, e não teria como aumentar sem ela.
  Não é a   real grandeza da riqueza nacional, mas seu contínuo aumento, que ocasiona uma   elevação nos salários do trabalho. Não é, portanto, nos países mais ricos,   mas nos mais esforçados, ou naqueles que enriquecem cada vez mais, que os   ganhos do trabalho são os mais elevados. A Inglaterra certamente é, nos   tempos atuais, um país muito mais rico do que qualquer outro da América do   Norte. Os salários do trabalho, porém, são muitos mais altos na América do   Norte do que em qualquer parte da Inglaterra.
  […] Mas,   se a América do Norte ainda não é tão rica quanto a Inglaterra, ela é muito   mais progressista, e avança com muito rapidez para a futura aquisição de   riquezas. O sinal mais decisivo da prosperidade é o aumento do número de seus   habitantes.
  […] Mesmo   que a riqueza de um país seja muito grande, se esteve estagnada por muito tempo,   não devemos esperar encontrar salários de trabalho muito elevados ali. Os   fundos destinados ao pagamento de salários, a renda e o capital e o capital   de seus habitantes podem ser da maior extensão, mas, se eles continuarem   iguais por muitos séculos, ou muito próximos dessa mesma extensão, o número   de trabalhadores empregados a cada ano poderia facilmente suprir, e até mais   que isso, o número esperado no ano seguinte. Dificilmente haveria escassez de   mão de obra, nem tampouco os patrões seriam obrigados a disputá-los.
  […] A   China , há muito tempo, é um dos países mais ricos, isto é, um dos mais   férteis, entretanto, parece estar estagnado há muito tempo. Marco Polo, que a   visitou há mais ou menos quinhentos anos, descreve sua agricultura, indústria   e população, quase nos mesmo termos em que são descritas por viajantes nos   tempos atuais. Talvez mesmo muito antes de seu tempo, o país tivesse   adquirido toda essa abundância de riquezas que a natureza de suas leis e   instituições lhe permite adquirir. Os relatos de todos os viajantes,   inconsistentes em muitos aspectos, concordam com os baixos salários de   trabalho e com a dificuldade que um trabalhador tem para sustentar uma   família na China.
  […] A   diferença entre o caráter da constituição britânica que protege e governa a   América do Norte, e o da companhia mercantil que oprime e domina as índias   orientais, não pode, talvez ser melhor ilustrado do que pela condição   distinta desses países.
  A   recompensa liberal do trabalho, portanto, que é o efeito necessário, é também   o sintoma natural de aumento da riqueza nacional. A escassa manutenção do   trabalho pobre, por outro lado, é o sintoma natural de que as coisas estão   estagnadas, e sua condição de fome, de que estão rapidamente retroagindo.
  […] Depois de tudo que já foi dito a   respeito da leviandade e inconsistência da natureza humana, fica claro, por   experiência, que um homem, de todas as espécies de bagagem, é a mais difícil   de ser transportada. Se os trabalhadores pobres, então, são capazes de manter   suas famílias nessas partes do reino onde o preço do trabalho é mais baixo,   devem sentir-se na fartura onde ele é mais alto.
  […] A   recompensa liberal do trabalho, que lhes permite cuidar melhor de seus filhos   e, por consequência, sustentar um número maior, naturalmente costuma ampliar   e estender esses limites. É preciso observar também que isso acontece tanto   quanto possível na proporção que exige a demanda de trabalho. Se essa demanda   aumenta de forma contínua, a recompensa de trabalho deve necessariamente   estimular também o casamento e a multiplicação de trabalhadores, pelo fato de   lhes possibilitar manter esse contínuo aumento de demanda por uma população   cada vez maior.[…] É dessa forma que a demanda por homens, bem como a de   qualquer outra mercadoria, necessariamente regula a produção de homens;   acelera –a quando caminha com lentidão, e a interrompe quando avança rápido   demais. É essa demanda que regula e determina o estado de propagação em todos   os diferentes países do mundo, seja na América do Norte, na Europa ou na   China, que o torna rapidamente progressivo no primeiro, lento e gradativo no   segundo e totalmente estagnado no último.
  […] Vale   a pena destacar, que é no estado progressivo, enquanto a sociedade avança   para outras aquisições, mais do que quando adquiriu todo o seu complemento de   riquezas, que a condição dos trabalhadores pobres, da grande massa do povo,   parece ser a mais feliz e a mais bem instalada. Isso é muito complicado no   estado de estagnação, e extremamente miserável quando em declínio. O estado   progressivo é, na realidade, o estado alegre e sincero para todas as   diferentes classes da sociedade. A estagnação é monótona, e o declínio,   melancólico.
  […] Isso, entretanto, não é de forma   alguma o que acontece com a maioria. Os trabalhadores, ao contrário, quando   são pagos por unidade, mostram-se dispostos a se esgotar e arruinar sua saúde   e constituição em poucos anos. Não é esperado que um carpinteiro em Londres,   e em outros lugares, mantenha seu vigor físico máximo por mais de oito anos.   Algo parecido acontece em muitos outros negócios, em que os trabalhadores são   pagos por peça produzida, como geralmente acontece em manufaturas, e até   mesmo no trabalho do campo, onde quer que os salários sejam mais altos do que   o comum. Quase toda a classe de artífices está sujeita a algum tipo de   enfermidade específica ocasionada pela aplicação excessiva de seus tipos   peculiares de trabalho. Ramuzzini, um importante médico italiano, escreveu um   livro que descreve essas doenças. Não reconhecemos nossos soldados como sendo   as pessoas mais diligentes entre nós, mas quando os soldados são empregados   em alguns tipos específicos de trabalho, e são pagos de modo liberal por   unidade produzida, seus oficiais frequentemente são obrigados a estipular com   o empreiteiro que eles não tenham permissão de ganhar acima de uma certa   quantia todos os dias, de acordo com a variação determinada para receberem.   Até que esse limite fosse imposto, a emulação mútua e o desejo de ganhos   maiores sempre os faziam trabalhar além da conta, prejudicando a sua saúde   com o excesso de trabalho. […] Se os patrões sempre ouvissem os ditames da   razão e da humanidade, teriam inúmeras ocasiões para tentar moderar, em vez   de estimular, a atividade de muitos de seus operários. Iremos descobrir,   creio, em todo tipo de atividade, que o homem que é capaz de trabalhar com   moderação, a ponto de poder trabalhar de modo constante, não apenas preserva   sua saúde por mais tempo, mas, ao longo do ano, desenvolve a maior quantidade   de trabalho.
  […] Muito   embora as variações no preço do trabalho nem sempre correspondam com as dos   preços das provisões, sendo a maior parte do tempo muito opostas, não   devemos, por conta disso, imaginar que o preço das provisões não tenha   influência no do trabalho. O preço em dinheiro do trabalho é necessariamente   regulado por duas circunstâncias: a demanda de trabalho e o preço das   necessidades e conveniências da vida.