Adam Smith – A Riqueza das Nações Livro I (IV)

Obra A Riqueza das   Nações Livro Livro I Autor Adam Smith Data 1776 Semana IV Capítulo Capítulo IX – Dos Lucros do Capital Trechos […] Por intermédio do 37º   decreto de Henrique III, todo juro acima de 10% era declarado ilegal. E mais,   isso parece ter sido tomado antes desse período. No reino de Eduardo VI, o   zelo religioso proibiu todos os juros. Dizem que essa proibição, no entanto,   assim como todas as outras do mesmo tipo, não surtiu efeito, e,   provavelmente, ao contrário, mais aumentou do que diminuiu o mal da usura. O   estatuto de Henrique VIII foi revivido no 13º decreto de Elizabete, cap. 8, e   10% continuou a ser a taxa legal de juros até o 21º decreto de James I,   quando foi restringido a 8%. Ele foi reduzido a 6% logo após a Restauração, e   pelo 12º decreto da rainha Ana, a 5%. Todas essas diferentes regulamentações   estatutárias parecem ter sido feitas com grande propriedade. Elas parecem ter   seguido, e não precedido, a taxa de juros do mercado, ou a cotação pela qual   as pessoas com crédito geralmente pegavam emprestado. Desde o tempo da rainha   Ana, 5% parece ter sido um pouco acima, e não abaixo, da variação do mercado.   Antes da última guerra, o governo emprestava a 3%, e as pessoas com bom   crédito de capital, e em muitas outras partes do reino, a 3,5%, 4% e 4,5%. […] Dinheiro, diz o   provérbio, atrai dinheiro. Quando você consegue um pouco, é fácil conseguir   mais. A grande dificuldade é conseguir esse pouco. A relação entre o aumento   do capital e o da indústria, ou da demanda de trabalho útil, já foi em parte   explicada, mas será mais detalhada adiante, quando falarmos do acúmulo de   capital. […] A partir daqui citarei   as razões que me levaram a crer que as reservas do capital da Grã-Bretanha   não diminuíram nem mesmo com as enormes despesas da última guerra. […] Entretanto, talvez   nenhum país ainda alcançado esse grau de opulência. A China parece estar   estagnada há muito tempo, e provavelmente há muito adquiriu esse complemento   total de riquezas que é consistente com a natureza de suas leis e   instituições. Mas esse complemento pode ser muito inferior ao que, com outras   leis e instituições, a natureza de seu solo, clima e situação podem admitir.   Um país que negligencia ou despreza o comércio estrangeiro, e que aceita as   embarcações de nações estrangeiras em somente um ou dois de seus portos, não   pode transacionar a mesma quantidade de negócios que poderia com diferentes   leis e instituições. Em um país, também, onde ricos   ou proprietários de grandes capitais usufruem de uma boa dose de segurança,   os pobres ou os proprietários de pequenos capitais desfrutam de quase nada,   mas estão sujeitos, sob pretexto da justiça, a ser pilhados ou saqueados a   qualquer momento pelos mandarins inferiores, a quantidade de capital   empregado em todos os diferentes ramos de negócios feitos nesse país nunca   pode ser igual ao que a natureza e a extensão dessa atividade podem admitir. Em cada ramo diferente, a   opressão dos pobres deve estabelecer o monopólio dos ricos que, ao engrossar   todo o comércio para si mesmos, conseguirão ganhar lucros muito altos. Diz   –se que 12% é o juro comum do dinheiro na China, e os lucros ordinários do   capital devem ser suficientes para cobrir esses juros altos.   […] Quando a lei proíbe qualquer espécie de juros, ela não o   elimina. Muitas pessoas devem emprestar, e ninguém dará emprestado sem   considerar se o uso do dinheiro será adequado ou não, mas também a   dificuldade e o perigo de não se cumprir a lei. A alta taxa de juros entre   todas as nações maometanas é atribuída pelo Sr. Montesquieu, não por sua   pobreza, mas em parte por isso, e em parte pela dificuldade de se recuperar o   dinheiro. A taxa ordinária de lucro mais   baixa deve ser algo além daquilo é suficiente para compensar as perdas   ocasionais a que se expõem todas as aplicações de capital. É somente esse   excesso que chamamos de lucro líquido. O que chamamos de lucro bruto   compreende, que sempre, não apenas esse excesso, mas também o que é retido   para a compensação dessas perdas extraordinárias. Os juros que o devedor pode   pagar são proporcionais somente ao lucro líquido. […] Ao elevar o preço da   mercadoria, o aumento dos salários opera da mesma maneira que os juros simples   no acúmulo da dívida. O aumento do lucro opera como os juros compostos.   Nossos comerciantes e mestres manufatureiros se queixam muito dos maus   efeitos dos altos salários no aumento de preço, reduzindo assim a venda de   seus bens, tanto no comércio local como no externo. Nada dizem a respeito dos   maus efeitos dos lucros altos. Preferem manter o silêncio com relação aos   efeitos perniciosos de seus próprios ganhos. Eles se queixam apenas dos   ganhos de outras pessoas. Capítulo Capítulo X – Dos salários e lucros nos diferentes empregos de   trabalho e capital Trechos O conjunto   de vantagens e desvantagens dos diferentes empregos do trabalho e do capital   deve ser, em uma mesma vizinhança perfeitamente igual ou continuamente tender   a igualdade. Se nos mesmos arredores houvesse qualquer emprego evidente mais   ou menos vantajosos de que os demais, muitas pessoas se aglomerariam para   consegui-lo, e tantas outras abandonariam o outro, de modo que suas vantagens   logo retornariam ao nível dos demais empregos. Esse, no   mínimo, seria o caso de uma sociedade em que as coisas seriam deixadas a   seguir seu curso natural, em que houvesse perfeita liberdade e em que todos   fossem totalmente livres para escolher que ocupações lhe seriam mais   adequadas e poder trocá-las quando desejassem. O interesse de cada um o faria   buscar os mais vantajosos empregos e afastar os que não lhe conviessem. Os   salários pecuniários e o lucro são, na verdade, em toda a parte da Europa,   extremamente diferente de acordo com os diferentes empregos de trabalho e   capital, mas essa diferença surge em parte de determinadas circunstâncias nos   próprios empregos que, de fato, ou ao menos na s imaginações dos homens,   representa um pequeno ganho pecuniário e alguns, e contrapõem um grande ganho   em outros e, em parte, da política da Europa, que de forma alguma permite que   as coisas aconteçam com total liberdade. Parte 1 – Desigualdades oriundas da   natureza dos próprios empregos […] A   política da Europa considera como trabalho qualificado o de todos os   mecânicos, artífices e manufatureiros, e o de todos os trabalhadores do campo   como trabalho comum. Parece supor que o dos primeiros seja de natureza mais   agradável e delicada do que a dos outros. Isso talvez seja verdade em alguns   casos, mais na maior parte é exatamente o contrário, como tentarei aos poucos   demonstrar. As leis e costumes da Europa, portanto, com o intuito de   qualificar qualquer pessoa pelo exercício de um determinado tipo de   profissão, impõe a necessidade de um aprendizado, se bem que com diferentes   graus de rigor em diferentes lugares. Deixam o outro livre e aberto a todos.   Durante a continuação do aprendizado, todo o trabalho do aprendiz pertence ao   seu mestre. Enquanto isso, ele deve, em muitos casos, ser mantido por seus   pais ou parentes, e , em quase todos os casos, deve ser vestido por   eles.Também, algum dinheiro é geralmente dado ao mestre por lhe ensinar o   trabalho. Aqueles que não tem dinheiro para oferecer compensam com seu tempo   ou são utilizados por mais anos que o costume, uma consideração que, apesar   de nem sempre ser vantajosa para o mestre por causa da comum ociosidade dos   aprendizes, é sempre desvantajosa para o aprendiz. No trabalho   do campo, ao contrário, o trabalhador, enquanto está empregado para   desempenhar as atividades mais simples, aprende as partes mais difíceis do   ofício, e seu próprio trabalho o mantém por todos os diferentes estágios de   seu emprego. É razoável, então, que na Europa os salários dos mecânicos,   artífices e manufatureiros sejam, de algum modo mais altos do que os   trabalhadores comuns. Assim ocorre , e seus ganhos superiores fazem com que   eles, na maioria dos lugares, sejam considerados uma classe superior de   pessoas. Essa superioridade, entretanto, é geralmente muito pequena; os   ganhos diários ou semanais, do artesão nos tipos mais comuns de manufaturas,   com a dos tecidos de linho e lã, calculados pela média, são, na maioria dos   lugares muito pouco maiores do que os salários diários dos trabalhadores   comuns. Seu emprego, de fato, é mais estável e uniforme, e a superioridade de   seus ganhos considerando-se o ano a todo, pode ser, de alguma maneira, maior.   Parece claro, no entanto, não ser maior do que aquilo que é suficiente para   compensar as despesas superiores de sua educação.   A educação   nas artes engenhosas e nas profissões liberais é ainda mais tediosa e cara. A   recompensa pecuniária, portanto, de pintores e escultores, de advogados e   médicos, deve ser muito mais liberal, e exatamente assim.   […] O   emprego é muito mais constante em algumas atividades do que em outras. Na   maior parte dos manufatureiros, um artesão    pode ter certeza absoluta de ser empregado quase todos os dias do ano   que estiver apto a trabalhar. Um construtor ou pedreiro, ao contrário, não   pode trabalhar em extremas temperaturas frias ou mau tempo, e seu emprego, em   todos os outros momentos, depende das chamadas ocasionais de seus clientes.   Ele está sujeito então, a ficar muito tempo sem ter nada para fazer. O que   ganha, portanto, enquanto empregado, não deve somente mantê-lo durante seu   período de ociosidade, mas deverá lhe oferecer alguma compensação para   aqueles momentos de ansiedade e desespero que a simples ideia de uma situação   tão precária deve, ocasionar. Onde os ganhos computados da maioria dos   manufatureiros estão quase no mesmo nível dos salários diários dos   trabalhadores comuns, os dos construtores e pedreiros são geralmente de uma   vez e meia o dobro desses ganhos. […] Nenhuma espécie de trabalho   qualificado, no entanto, parece ser mais fácil de ser aprendido do que o dos   construtores e dos pedreiros.   Dizem que presidentes de empresas em   Londres, durante o período de verão, às vezes trabalham como pedreiros. Os   altos salários desses trabalhadores, portanto, não são como a recompensa de   sua capacidade, como a compensação pela inconstância de seu emprego.   […]   Quando a inconstância do emprego é combinada à dificuldade, ao desagrado e à   sujeira da atividade, ele , ás vezes, aumenta os salários na maioria dos   trabalhos comuns acima dos ganhos dos artífices mais habilidosos. Um   minerador de carvão que trabalha por peça produzida pode ganhar, em   Newcastle, geralmente o dobro e, em muitas partes da Escócia, o triplo, dos   ganhos dos trabalhadores comuns.   […] Os   ganhos dos trabalhadores variam de acordo com a pequena ou grande confiança   que deve ser depositada aos trabalhadores.   Os salários   de ourives e joalheiros são, em toda a parte, superiores aos de muitos outros   trabalhadores, não somente de igual habilidade, mas também daqueles com   habilidade muito superior, por causa dos materiais preciosos que lhes são   confiados.   Confiamos nossa saúde aos médicos, nossa   fortuna e, às vezes, nossa vida e reputação aos advogados e aos procuradores.   Essa confiança não poderia , de modo seguro, ser depositada em pessoas de   condições muito simples ou baixa. Sua recompensa deve ser  tal, portanto, que possa lhes conferir   aquela posição na sociedade que deles exige uma confiança tão importante. O   longo tempo e os elevados custos que devem ser investidos em sua educação,   quando combinados com essa circunstância, necessariamente aumentam ainda mais   o preço de seu trabalho.   […] Os   ganhos do trabalho em diferentes empregos variam de acordo com a   probabilidade ou a improbabilidade de sucesso neles.   A   probabilidade que qualquer pessoa em particular esteja qualificada para o   emprego para o qual é educada é muito diferente nas diversas ocupações.   Na maioria dos ofícios mecânicos, o   sucesso é quase certo, mas isso não acontece nas profissões liberais. Coloque   seu filho para trabalhar como aprendiz de sapateiro e verá que há poucas   chances de ele não aprender a fazer um par de sapatos; mas experimente   mandá-lo para estudar as leis e verá que há pelo menos 20 chances contra uma   de que ele terá proficiência suficiente para viver desse trabalho. Em um jogo   de loteria perfeitamente justo, aqueles que levam os prêmios devem ganhar   tudo o que é perdido pelos que não acertam nenhum número. Em uma profissão em   que 20 fracassam contra um bem sucedido, esse um deve ganhar tudo que deveria   ser dos 20 mal sucedidos. O consultor jurídico que, talvez, com quase 40 anos   de idade, começa a ganhar algo com sua profissão, deve receber a retribuição   não somente de sua própria educação tão tediosa e cara, mas a de mais 20   outras pessoas que provavelmente jamais irão ganhar nada por ela. […] A   loteria da advocacia, portanto, está muito mais longe de ser justa e   perfeita, e é, assim como muitas outras profissões liberais e honradas, no   ponto do ganho pecuniário, evidentemente mal remunerada.   […]   Destacar-se em qualquer profissão, em que alguns poucos chegam à   mediocridade, é a marca mais decisiva daquilo que chamamos de capacidade ou   talento superior. O reconhecimento público oferecido a essas habilidades tão   distintas sempre faz parte de sua remuneração, que é maior ou menor, em   proporção ao seu grau mais baixo ou mais elevado. Ele representa uma parte   considerável dessa recompensa na profissão médica, que pode ser ainda maior   no ramo jurídico e quase total nas atividades dos poetas e filósofos.   […] Há   alguns talentos muito prazerosos e bonitos cuja posse atrai um certo tipo de   admiração, mas cujo exercido, em relação aos ganhos, é considerado, seja por   razão ou preconceito, um tipo de prostituição pública. A recompensa   pecuniária, portanto, daqueles que os exercem dessa forma deve ser   suficiente, não somente para pagar por seu tempo, trabalho e gastos da   aquisição dos talentos, mas pelo descrédito que espera por seu emprego como   meio de subsistência. As remunerações exorbitantes de jogadores, cantores e   dançarinos de ópera, etc., são baseadas nesses dois princípios, considerando-se   a raridade e a beleza dos talentos, bem como o descrédito de se atuar nesses   empregos.   […] O   orgulho presunçoso que a maioria dos homens tem de suas próprias habilidades   é um antigo mal observado pelos filósofos e moralistas de todos os tempos.   Sua presunção absurda em relação à sua boa sorte tem sido menos notada. Ela   é, no entanto, se possível, ainda mais universal. Não existe um só homem vivo   que, com tolerável saúde e humor, não tenha compartilhado dela. A chance de   ganho é para todos, mais ou menos, superestimada, e a chance de perda é   subestimada pela maioria, e raramente para qualquer homem, com tolerável   saúde e humor, avaliados além de seu próprio valor.   […] A   habilidade de um farmacêutico é uma questão muito melhor e mais delicada do   que a de qualquer artífice, e a confiança depositada nele é de importância   muito superior. Ele é o médico dos mais pobres em todos os casos, e dos ricos   quando a dor ou o perigo não são tão grandes. Sua remuneração , portanto,   deve estar de acordo com sua capacidade e confiança e ela aumenta geralmente   em relação ao preço pelo qual vende seus medicamentos; no entanto, todos os   remédios que o farmacêutico mais bem instalado em uma cidade de grande   mercado irá vender em um ano, podem, talvez, não lhe custar mais dos que 30   ou 40 libras. Embora ele vá vender seus medicamentos por 300 ou 400, ou a um   lucro de 100%, esse pode ser nada mais do que os ganhos razoáveis de seu   trabalho, da única forma que pode cobrar por eles, pelo preço de suas drogas.   A maior parte do lucro aparente é o salário real disfarçado de lucro.   […] Sendo   os lucros do capital, no comércios atacadista e varejista, geralmente menores   nas capitais do que nas pequenas cidades e nos vilarejos campestres, grandes   fortunas são frequentemente adquiridas de pequenos comércios nas capitais e,   quase nunca, nas outras localizações. Em pequenas cidades e vilarejos, por   conta da limitação do mercado, o comércio nem sempre consegue se estender   assim como acontece quando o capital é maior.