Adam Smith – A Riqueza das Nações Livro I (II)
Obra
A Riqueza das Nações
Livro
Livro I
Autor
Adam Smith
Data
1776
Semana
II
Capítulo
Capítulo IV – Da Origem e do Uso do Dinheiro
Trechos
Quando a divisão do trabalho está bem estabelecida, apenas uma pequena parte das necessidades de um homem é suprida pelo produto de seu próprio trabalho. Ele satisfaz a maior parte dessas necessidades com a troca do excesso do produto de seu trabalho, aquele que está além de seu próprio consumo, por aquelas partes do produto do trabalho de outras pessoas de que necessita.
Em todos os países, porém, os homens parecem finalmente determinados, por razões irresistíveis, a dar preferência, em troca de seu trabalho, aos metais mais do que a qualquer outra mercadoria. Os metais não somente podem ser guardados com pequenas chances de perda do que qualquer outro bem, visto que nada pode ser menos perecível que eles, como também podem, sem nenhum prejuízo, ser divididos em qualquer número de partes, bem como, por fusão, essas partes podem facilmente ser reunidas facilmente ser reunidas novamente; uma qualidade que nenhuma outra mercadoria igualmente durável possui, e que mais do que qualquer outra qualidade se torna adequado para se transformar em instrumentos de comércio e circulação. O homem que quisesse comprar sal, por exemplo, e nada tivesse além de gado para dar em troca, seria obrigado a comprar sal pelo valor de um boi inteiro, ou de uma ovelha inteira toda vez que desejasse fazer negócio. Ele raramente podia comprar menos que isso, já que aquilo que podia dar em troca não podia ser dividido sem que houvesse perda; e se tinha planos de comprar mais, ele tinha que, pelas mesmas razões, ser obrigado a comprar o dobro ou o triplo da quantidade para compensar o valor de dois ou três bois, ou de duas ou três ovelhas. Se, ao contrário, em vez de ovelhas ou bois, tivesse metais para dar em troca, ele podia facilmente fazer uma proporção mais exata da quantidade do metal com a quantia do bem que precisava de imediato.
O uso de metais nesse estado bruto ficava prejudicado por duas inconveniências bastante consideráveis: primeira, o trabalho da pesagem; e, segunda, onde analisa-los. Nos metais preciosos, em que uma pequena diferença na quantidade faz uma enorme diferença no valor, até mesmo o trabalho de pesagem, com a devida exatidão, exige no mínimo pesos e balanças de máxima precisão. A pesagem de ouro, em particular, é uma operação muito delicada. Nos metais mais grosseiros, na verdade, em que um pequeno erro não acarretaria grandes consequências uma menor precisão seria necessária. Contudo, seria excessivamente trabalhoso se , a cada vez que um homem desejasse comprar ou vender o equivalente a um centavo, ele tivesse de pesar um valor tão irrisório. A operação de analisar o metal é ainda mais complexa, ainda mais tediosa e, a menos que uma parte do metal seja muito bem derretida no cadinho, com os solventes adequados, qualquer conclusão que seja tirada é muito incerta.
Antes da instituição da moeda cunhada, porém, se não se submetessem a essa operação tediosa e difícil, as pessoas ficavam à mercê das fraudes e imposturas mais grotescas que se possa imaginar e, ao invés de uma libra de prata pura, ou de cobre puro, podiam receber em troca por seus bens uma composição adulterada dos materiais mais brutos e mais baratos que, por sua vez, possuíam a mesma aparência dos metais preciosos. Para evitar esse abusos, facilitar as trocas e, assim, estimular todos os tipos de indústrias e comércio, achou-se necessário, em todos os países interessados em alcançar grandes avanços para um aperfeiçoamento, fixar um selo público em determinadas quantias de certos metais que eram então utilizados para a compra de mercadorias. Daí a origem do dinheiro cunhado e dos órgãos públicos chamados de casas da moeda; as instituições exatamente da mesma natureza que as chancelas de tecidos como lã e linho. Todas elas com a finalidade de garantir, por meio de um selo público, a quantidade e a qualidade uniforme dos diferentes bens que chegavam ao mercado.
[…] Desde de o tempo de Carlos Magno entre os franceses, e da época de William o Conquistador entre os ingleses, a proporção entre a , o xelim e o centavo parece ter sido uniformemente a mesma de hoje, embora o valor de cada um tenha sido muito diferente, pois em todos os países do mundo, creio, a avareza e a injustiça de príncipes e de Estados Soberanos, ao abusar da confiança de seus súditos, aos poucos diminuíram a quantidade real de metal que originalmente existia em suas moedas.
[…] É dessa forma que o dinheiro se tornou em todas as nações civilizadas o instrumento universal de comércio, pela intervenção de cujos bens de todos os tipos são trazidos e vendidos, ou trocados entre eles.
Quais são as regras que os homens naturalmente seguem ao trocar seus produtos por dinheiro ou outros produtos, será o alvo de minha investigação a partir de agora. Essas regras determinam o que podemos chamar de valor relativo ou de troca de mercadorias. A palavra valor, devemos observar, tem dois significados diferentes e, às vezes, expressa a utilidade de um determinado objeto e, outras vezes, o poder de compra de outros produtos cuja posse daquele objeto possibilita. O primeiro pode ser chamado de “valor de uso”, o outro de “valor de troca”.
Investigaremos os princípios que regulam o valor da troca de mercadorias: é o que irei mostrar. Em primeiro lugar, qual é a primeira medida desse valor de troca; ou, em que consiste o preço real das mercadorias. Em segundo lugar, quais são as diferentes circunstâncias que, às vezes, fazem aumentar algumas ou todas essas diferentes partes do preço acima mencionado e, por vezes, os fazem cair abaixo de sua taxa natural ou comum; ou, quais são as causas que, às vezes, impedem o preço de mercado, isto é, o preço real das mercadorias, de coincidir exatamente com aquilo que podemos chamar de preço natural.
[…] Estou sempre disposto a correr o risco de parecer tedioso no intuito de ter certeza de estar sendo claro; e, depois de tomar todo o cuidado para que isso de fato aconteça, alguma obscuridade poderá ainda restar acerca do assunto em sua própria natureza extremamente abstrata.
Capítulo
Capítulo V – Do Preço Real e Nominal dos Produtos, de seu Preço em Trabalho e seu Preço em Dinheiro
Trechos
Todo homem é rico ou pobre segundo o grau em que é capaz de adquirir e desfrutar as necessidades, conveniências e diversões da vida humana. Contudo, após a divisão do trabalho acontecer por completo, somente uma pequena parte disso tudo é que seu próprio trabalho pode lhe proporcionar. A maior parte dessas coisas ele tem de tirar do trabalho de outras pessoas e, assim, será considerado rico ou pobre de acordo com a quantidade desse trabalho que pode controlar, ou daquilo que é capaz de adquirir. O valor de qualquer bem, portanto, para a pessoa que o possui, e aquele que não tem a intenção de usar ou consumi-lo ele próprio, mas de trocá-lo por outros produtos, é igual à quantidade de trabalho que o possibilita comprar ou controlar. O trabalho, portanto, é a medida real do valor de troca de todas as mercadorias.
O preço real de tudo aquilo que, de fato, custa para o homem que deseja adquiri-lo, é a labuta e o incômodo de consegui-lo. […] O trabalho foi o primeiro preço, a moeda original de troca pagava por todas as coisas. Não era com ouro nem prata, mas sim pelo trabalho, que toda a riqueza do mundo era originalmente adquirida, e seu valor, para aqueles que o possuem, e que desejam trocar por outras produções, é exatamente igual à quantidade de trabalho que lhes possibilita adquirir ou controlar.
[…] Ao trocar algo, portanto, as diferentes produções de diferentes tipos de trabalho, certas concessões são admitidas de ambos os lados. Elas são então ajustadas não por uma medida exata, mas pelo regateio e a barganha do mercado, de acordo com aquele tipo de equiparação grosseira que, embora não seja precisa, basta para dar continuidade ao negócio da vida comum.
[…] Entretanto, quando a barganha se encerra e o dinheiro se torna o instrumento comum de comércio, todo bem particular é mais frequentemente trocado por dinheiro do que por qualquer mercadoria. O açougueiro nunca leva consigo sua carne quando vai à padaria, nem o cervejeiro leva sua bebida quando quer comprar pão; mas ele a leva para o mercado, onde pode trocá-la por dinheiro por pão e cerveja. A quantidade de dinheiro que ele consegue em troca de seu produto regula também a quantidade de pão e cerveja que poderá adquirir posteriormente.
[…] Em todo tempo e lugar, custa caro aquilo que é difícil conseguir, ou que se obtém com menos trabalho e custa barato aquilo que é fácil conseguir, ou que se obtém com menos trabalho. O trabalho sozinho, portanto, nunca variando em seu próprio valor, é o único e real padrão pelo qual o valor de todos os bens pode, em todo o tempo e lugar, ser calculado e comparado. É o seu preço real; o dinheiro é apenas seu preço nominal.
[…] Nesse sentido popular, podemos dizer, portanto, que o trabalho, assim como as mercadorias, consiste na quantidade das necessidades e conveniências da vida que lhe são dadas em troca; seu preço nominal, a quantidade de dinheiro. O trabalhador é rico ou pobre, é bem ou mal remunerado, na proporção do preço real, e não do preço nominal de seu trabalho.
[…] Em um mesmo tempo e lugar, os preços real e nominal de todas as mercadorias são exatamente proporcionais. Quanto mais ou menos dinheiro você consegue por um produto, no mercado londrino, por exemplo, mais ou menos trabalho irá possibilitar você de comprar ou controlar. No mesmo tempo e lugar, portanto, o dinheiro é a medida exata do valor real de troca de todos os bens. Assim, isso deve sempre acontecer somente no mesmo tempo e local.
[…] Antes da reforma da moeda do ouro, o preço de mercado estava sempre mais ou menos acima do preço da casa da moeda. Desde essa reforma, o preço de mercado se manteve o tempo todo abaixo do preço da casa da moeda, mas esse preço de mercado é o mesmo, sendo pago em moeda de ouro ou de prata. A última reforma da moeda de ouro, portanto, elevou não somente o valor da moeda de ouro, mas também o da moeda de prata em proporção à barra de ouro e também, provavelmente, na proporção de todos os demais bens; por meio do preço da maior parte de outros produtos sendo influenciado por tantas outras causas, o aumento do valor da moeda de ouro ou de prata em proporção a elas pode não ser tão diferente e notável.
[…] Como raramente acontece de tudo estar exatamente de acordo com seu padrão, o mercador ajusta o preço de seus produtos, da melhor maneira possível, não ao que esses pesos e medidas devem ser, mas ao que, na média, ele acredita por experiência, realmente, ser o certo.
Capítulo
Capítulo VI – Das Partes Componentes do Preço das Mercadorias
Trechos
Naquele estado rude e primitivo da sociedade que precede o acúmulo de estoque e a apropriação da terra, a proporção da terra, a proporção entre as quantidades de trabalho necessárias para adquirir diferentes objetos parece ser a única circunstância que pode fornecer qualquer regra de troca.
Se um uma nação de caçadores, por exemplo, geralmente custa o dobro de trabalho matar um castor do que um veado, um castor deveria então valer dois veados na troca. É natural que o produto de dois dias ou de duas horas de trabalho valesse o dobro daquilo que geralmente é o produto de um dia ou de uma hora do mesmo trabalho.
[…] Esses talentos dificilmente podem ser adquiridos se não em consequência de uma longa aplicação, e o valor superior de sua produção pode, quase sempre, ser não mais do que uma compensação razoável pelo tempo e trabalho que deve ser gasto para adquiri-los. No estado avançado da sociedade, concessões desse tipo, pela dificuldade e habilidade superiores, são costumeiramente feitas nos ordenados de trabalho, e algo semelhante deve ter acontecido em seu período mais primitivo e rude.
[…] Assim, como há um acúmulo de capital nas mãos de particulares, alguns deles irão de modo natural empregá-lo, colocando para trabalhar pessoas habilidosas a quem forneceriam materiais e subsistência no intuito de conseguir um lucro com a venda de seu trabalho, ou por aquilo que seu trabalho é capaz de agregar ao valor dos materiais. Ao trocar toda a produção por dinheiro, trabalho ou outros bens, além e acima daquilo que pode ser suficiente para pagar o preço dos materiais e os ordenados dos trabalhos, alguma coisa deve ser dada pelos lucros do empreendedor do trabalho que arrisca seus capitais nessa aventura. O valor que os trabalhadores agregam aos materiais, portanto, divide-se em duas partes, o que paga seus salários e o lucro de seu empregador referente a todo o capital de materiais e ordenados que foi investido. Ele poderia não ter interesse em empregá-los, a menos que esperasse receber da venda de seus trabalhos algo além do que seria suficiente para substituir seu capital, e poderia não ter interesse em empregar um grande capital para não arriscar tanto, a menos que seus lucros sustentassem uma proporção à extensão de seu investimento.
Poderíamos pensar que os lucros de capital são apenas um nome diferente para os salários de um tipo específico de atividade, o trabalho de inspeção e direção. Eles, são porém, totalmente distintos, além de regulados por princípios muito diferentes e de não ter nenhuma proporção com a quantidade, o grau de dificuldade ou a habilidade desse suposto trabalho de inspeção e direção. São regulados pelo valor do capital empregado e possuem uma maior ou menor proporção à extensão de seus capitais. […] No preço das mercadorias, portanto, os lucros do capital constituem uma parte componente totalmente diferente dos ordenados de trabalho e são regulados por princípios muito diferentes.
[…] Assim que a terra de qualquer país se torna propriedade privada, os senhorios, como todos os outros homens, adoram colher onde nunca plantaram, e exigem uma renda até para sua produção natural. A madeira da floresta, a grama do campo e todas as frutas naturais da terra que, quando não tinham um só dono, custavam ao trabalhador somente o trabalho de colhê-las, passam agora, até para ele mesmo a ter um preço adicional fixado para a compra. Ele deve então, pagar pela licença para realizar a colheita, e deve entregar ao dono da terra uma porção daquilo que seu trabalho rende ou produz. Essa porção, ou o que é a mesma coisa, o preço dessa porção, constitui o aluguel da terra, e no preço da maioria das mercadorias está contida uma terceira parte componente.
O valor real de todas as diferentes partes componentes do preço, devemos observar, é medido pela quantidade de trabalho que cada um deles pode comprar ou controlar. O trabalho mede o valor não só dessa parte do preço referente à atividade, mas também a do aluguel e a do lucro.
Em toda sociedade, o preço de todas as mercadorias finalmente se equivale a uma ou outra, ou a todas essas três partes e, em cada sociedade desenvolvida, todas as três somadas, mais ou menos, como partes componentes, no preço da maior parte dos produtos.
Aquele que tira sua própria renda de um fundo particular deve tirá-la de seu trabalho, de seus estoques ou de sua terra. O rendimento derivado do trabalho é chamado de salário. Aquele que deriva do capital, da pessoa que o gerencia ou o utiliza, é chamado de lucro. O derivado do lucro, pela pessoa que não o utiliza, mas emprega a outrem, é chamado de interesse ou uso do dinheiro.
[…] Se a sociedade fosse, todo ano, empregar todo o trabalho que é capaz de comprar anualmente, como a quantidade de trabalho iria aumentar demais ano após ano, a produção de cada ano sucessivo seria de valor imensamente maior do que o anterior. No entanto, não existe um país em que toda a produção anual seja empregada na manutenção dos trabalhadores industriosos. Os ociosos por toda a parte consomem uma grande parte dessa manutenção e, de acordo com as diferentes proporções em que ela é anualmente dividida entre esses dois tipos diferentes de pessoas, seu valor ordinário ou médio deve, todo ano, aumentar, diminuir ou continuar o mesmo de um ano para outro.