ADAM SMITH – A RIQUEZA DAS NAÇÕES LIVRO II – SEMANA II

Obra A Riqueza das   Nações
Livro Livro II
Autor Adam Smith
Data 1776
Semana II
Capítulo Capítulo I I – Do   dinheiro considerado uma parte específica do capital geral da sociedade, ou   dos gastos de manutenção do capital nacional
Trechos […] O rendimento bruto de todos os   habitantes de um grande país compreende a produção anual total de sua terra e   de seu trabalho; o rendimento líquido, aquilo que lhes resta sem custo após a   dedução dos gastos de manutenção – primeiro, seu capital fixo e, segundo, seu   capital circulante; ou aquilo que, sem transgredir  seu capital, pode transformar seu estoque   reservado para consumo imediato, ou investir em sua subsistência,   conveniência e diversões. Sua riqueza real também é proporcional não à sua   renda bruta, mas à sua líquida.
[…] Embora, portanto, quase sempre, nos   refiramos ao rendimento de uma pessoa pelas peças de metal que lhe são   anualmente pagas, isso acontece porque a quantia desses metais regula a   extensão de seu poder de compra, ou o valor dos bens que ele pode, todo ano,   consumir. Ainda consideramos seu rendimento como sendo formado desse poder de   compra ou de consumo, e não das peças que proporcionam isso.
No entanto, se isso é suficientemente óbvio   mesmo com relação a um indivíduo, é ainda mais com relação a uma sociedade. A   quantia de peças de metal que são anualmente pagas a um indivíduo geralmente   equivale à sua renda,e é por essa razão a melhor  e mais breve expressão de seu valor. Mas a   quantidade de peças de metal que circulam em uma sociedade nunca pode ser   igual ao rendimento de todos os seus membros. Como o mesmo guinéu que paga a   pensão semanal de um homem hoje pode pagar a de outro amanhã, e a de um   terceiro no dia seguinte, a quantia das peças de metal que anualmente circula   em qualquer país deve sempre ser de menor valor do que as pensões totais  em dinheiro anualmente pagas com elas. Mas   o poder de compra, ou dos bens que podem sucessivamente ser comprados com o   total dessas pensões em dinheiro, deve sempre ser exatamente do mesmo valor   dessas pensões; assim como deve ser, da mesma forma, o rendimento das   diferentes pessoas a quem são pagas. Essa renda, portanto, não pode consistir   nesses metais, cuja quantia é muito inferior a seu valor, mas no poder de   compra, ou seja, nos bens que podem sucessivamente ser adquiridos com eles   conforme circulam de mão em mão.
[…] O uso do papel no lugar do dinheiro   de ouro e prata substitui um instrumento muito caro de comércio por um bem   menos custoso e, às vezes, igualmente conveniente. A circulação passa  a ser realizada por uma nova roda, que   custa menos para ser produzida e mantida do que a anterior. Mas a forma com   que essa operação é realizada e de que costuma aumentar as rendas bruta e   líquida da sociedade não é tão óbvia e pode, portanto,exigir mais   explicações.
  Há vários diferentes tipos de dinheiro de   papel, mas as notas circulantes dos bancos e dos banqueiros são as espécies   mais conhecidas e que parecem melhor adaptadas para esse fim.
Quando as pessoas de um determinado país   confiam na fortuna, probidade e prudência de certo banqueiro, a ponto de   acreditar que ele está sempre pronto para pagar, conforme sua necessidade,   suas notas promissórias sempre que elas lhe são apresentadas, essas notas   passam a ter a mesma liquidez do dinheiro de ouro e prata, a partir da   segurança de que esse dinheiro pode, a qualquer momento, chegar em suas mãos.
  […] O negócio do país é quase todo   realizado por meio do papel dessas diversas empresas bancárias, com o qual   compras e pagamentos em espécies são geralmente feitos. A prata muito   raramente aparece, exceto na troca de uma nota bancária de 20 xelins, e o   ouro é ainda mais raro. Mas embora a conduta de todas essas diferentes   empresas não seja irrepreensível e tenha, na realidade, exigido um ato do   parlamento para ser regulado, o país, apesar disso, tem obtido,   evidentemente, grande benefício de tal negócio. Ouvi afirmarem que o comércio   da cidade de Glasgow dobrou em cerca de 15 anos depois do primeiro   estabelecimento dos bancos lá; e que o comércio da Escócia mais do que   quadruplicou desde a instituição de dois bancos públicos em Edimburgo, dos   quais o primeiro, chamado de Banco da Escócia, foi estabelecido pelo ato do   parlamento de 1695; o outro; chamado de Banco Real, por uma licença real em   1727. Se o comércio, tanto da Escócia em geral, ou da cidade de Glasgow em   especial, de fato aumentou em uma proporção tão grande, durante um período   tão curto, não é o que pretendo descobrir. Se um deles aumentou nessa proporção,   parece ser um efeito grande demais para ser explicado somente por tal tipo de   operação. Que o comércio e a indústria da Escócia , porém, aumentaram do modo   expressivo durante esse período, e que os bancos contribuíram muito para esse   crescimento, não pode ser duvidado.
  […] É principalmente pelo desconto de   notas de câmbio, ou seja, pelo adiantamento de dinheiro por elas antes de seu   vencimento, que a maior parte dos bancos    e banqueiros emite suas notas promissórias. Eles deduzem sempre, sobre   qualquer quantia que adiantam,os juros legais até a data de vencimento da   nota. O pagamento da nota, quando vence, repõe ao banco o valor do que havia   sido adiantado, junto com um lucro nítido dos juros. O banqueiro que adianta   ao mercador cuja nota ele desconta, não ouro e prata, mas suas próprias notas   promissórias, tem a vantagem de conseguir descontar em uma quantidade maior,   pelo valor total de suas notas promissórias, que ele sabe, por experiência,   que estão em circulação. Com isso, consegue tirar seu ganho dos juros de uma quantia   muito mais expressiva.