Posicionamento sobre A Riqueza das Nações – Livro I
Posicionamento sobre A Riqueza das Nações – Livro I
Aos que começaram a acompanhar o blog há pouco tempo, tenho o costume de me posicionar a respeito de cada livro que leio, então como de costume, vou comentar sobre o Livro I de A Riqueza das Nações:
Adam Smith começa seu estudo falando sobre a divisão do trabalho, sobre a evolução do trabalho nas pequenas oficinas de artesãos até o surgimento das indústrias. No entanto o que mais me chamou a atenção não foi a evolução histórica, fato que cabe aos historiadores, mas sim seu olhar sobre a natureza humana, sobre o comportamento da sociedade ao longo dos séculos e o pensamento europeu da época.
Gostei do trecho em que ele comenta a melhoria realizada em uma máquina, sobre a qual um garoto tinha responsabilidade sobre uma pequena etapa na produção, e para reduzir seu trabalho ele criou uma alternativa para que a válvula abrisse e fechasse sozinha, Smith destaca a importância da observação seja no processo produtivo como na sociedade, papel dos filósofos da época:
[…] Nos primeiros motores de combustão, um garoto era sempre chamado para abrir e fechar, de modo alternado, a comunicação entre a caldeira e o cilindro, toda a vez que o pistão subia ou descia. Um desses garotos, que adorava brincar com seus companheiros, observou que, ao amarrar um cordão do cabo da válvula que abria essa comunicação até uma outra parte da máquina, a válvula abria e fechava sozinha, e o deixava livre para brincar com seus colegas. Um dos maiores aperfeiçoamentos feitos nessa máquina, desde que foi inventada, resultou da descoberta de um garoto que queria reduzir seu próprio trabalho. Todas as melhorias nesse maquinário, porém, nunca foram, de modo algum, resultado das invenções daqueles que tinham de usar as máquinas. Muitos aprimoramentos são resultado da perspicácia dos criadores das máquinas, quando sua fabricação se torna o negócio de um comércio específico; e também de alguns daqueles que são chamados de filósofos ou homens de especulação, cujo trabalho é não fazer nada, mas observar tudo; e que, por causa disso, são geralmente capazes de combinar as forças dos objetos mais distantes e inusitados.
No progresso da sociedade, a filosofia ou a especulação se torna, como qualquer outro trabalho, a única ou principal atividade e ocupação de uma classe específica de cidadãos. Assim como em qualquer outra função, ela é subdividida em um grande número de diferentes ramificações, cada uma das quais proporcionando ocupação para uma determinada tribo ou classe de filósofos, e essa subdivisão de empregos na filosofia, bem como em qualquer outro negócio, aprimora a destreza, além de economizar tempo. Cada indivíduo torna-se mais especializado em sua própria ramificação, mais trabalho é desenvolvido no total e a quantidade de ciência também aumenta de maneira considerável.
Ao falar do princípio que leva à divisão do trabalho, o autor resume de forma muito objetiva a razão que leva as pessoas a realizarem as trocas: o interesse. De forma que cada um procure produtos de que necessitam e ao mesmo tempo convençam os demais sobre as vantagens de realizar trocas pelos seus produtos. Este é um dos trechos mais conhecidos do livro:
[…] Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração de seu próprio interesse. Referimo-nos não à sua humanidade, mas ao seu amor próprio, e jamais falamos com eles de nossas próprias necessidades, mas de suas vantagens.
[…] Pelo fato de ser por acordos, trocas ou compras que obtemos uns dos outros a maior parte daquelas necessidades mútuas que esperamos, temos a mesma disposição de permuta que originalmente causa a divisão do trabalho.
[…] Entre os homens, ao contrário, as mais diferentes habilidades são de uso particular, mas as diferentes produções de seus respectivos talentos, pela disposição geral de trocar, permutar e cambiar, são consideradas uma ação comum, em que todos podem adquirir qualquer parte da produção que resulta dos talentos de outros homens que ele possa desejar.
E da relação trabalhadores x patrões, quem imagina que esse conflito de interesses seja contemporâneo, representados pelas entidades de classe como os sindicatos dos trabalhadores e sindicatos patronais, se engana. Já no século XVIII essa relação demonstrava a manipulação dos salários através dos acordos entre os patrões e as manifestações dos trabalhadores por melhores ganhos. Ao falar sobre os ganhos do trabalho:
[…] Raramente ouvimos falar das combinações de patrões, mas frequentemente ouvimos falar das combinações dos empregados. Mas, quem quer que imagine que, por isso, os patrões nunca fazem suas combinações, é tão desconhecedor do mundo quanto desse assunto. Os patrões mantém, sempre e em toda parte, uma espécie de acordo tácito, porém constante e uniforme, de não elevar os salários do trabalho acima de sua variação real. Violar esse acordo é, em toda a parte, um ato muito impopular, e uma espécie de opróbrio para um patrão em meio a seus vizinhos e pares. Os patrões também, ás vezes fazem acordos particulares para baixar os valores dos salários do trabalho até mesmo abaixo dessa cotação. Essas combinações são sempre conduzidas no silêncio mais absoluto e com a máxima discrição, até que chega o momento de sua execução, e quando os trabalhadores acabam cedendo, como fazem às vezes, sem resistência, apesar de serem severamente atingidos por elas, pouco se ouve a esse respeito. Esses acordos, porém, são frequentemente resistidos por um acordo contrário defensivo dos trabalhadores, que também, às vezes sem nenhuma provocação de qualquer tipo, fazem seus próprios acordos para elevar os preços de seu trabalho. […] Para apressar uma decisão, sempre recorrem ao mais ruidoso clamor e, às vezes, aos piores tipos de violência e ultraje. Sentem-se desesperados, e agem com a loucura e a extravagância de um homem descontrolado, que devem perecer à míngua ou amedrontar seus patrões para que concordem imediatamente com suas exigências. Os patrões, nesses casos, ficam tão clamorosos quanto a outra parte, e nunca deixam de gritar aos brados em busca de assistência dos magistrados civis, além da execução rigorosa dessas leis que foram promulgadas com tanta severidade contra os acordos dos subalternos, trabalhadores e artesãos. Os operários, por sua vez, raramente tiram qualquer vantagem da violência desses acordos tempestuosos, que, em parte pela intervenção do magistrado civil, e em parte pela perseverança de seus patrões, bem como pela necessidade que a maioria dos trabalhadores e submete em nome de seu atual sustento, geralmente dão em nada, mas somente ao castigo ou ruína dos líderes dos tumultos.
Para os que já compartilharam leituras anteriores, estes já leram a respeito do estudo dos tempos e movimentos de Taylor, (quem quiser resgatar a leitura está compartilhada no blog na categoria F.W.Taylor) este estudo foi publicado entre o final do século XIX e início do século XX e previa descansos alternados para os trabalhadores determinados pela gerência de produção. Mas Smith já destacava o assunto em 1776:
[…] Os trabalhadores, ao contrário, quando são pagos por unidade, mostram-se dispostos a se esgotar e arruinar sua saúde e constituição em poucos anos. Não é esperado que um carpinteiro em Londres, e em outros lugares, mantenha seu vigor físico máximo por mais de oito anos. Algo parecido acontece em muitos outros negócios, em que os trabalhadores são pagos por peça produzida, como geralmente acontece em manufaturas, e até mesmo no trabalho do campo, onde quer que os salários sejam mais altos do que o comum. Quase toda a classe de artífices está sujeita a algum tipo de enfermidade específica ocasionada pela aplicação excessiva de seus tipos peculiares de trabalho. Ramuzzini, um importante médico italiano, escreveu um livro que descreve essas doenças. Não reconhecemos nossos soldados como sendo as pessoas mais diligentes entre nós, mas quando os soldados são empregados em alguns tipos específicos de trabalho, e são pagos de modo liberal por unidade produzida, seus oficiais frequentemente são obrigados a estipular com o empreiteiro que eles não tenham permissão de ganhar acima de uma certa quantia todos os dias, de acordo com a variação determinada para receberem. Até que esse limite fosse imposto, a emulação mútua e o desejo de ganhos maiores sempre os faziam trabalhar além da conta, prejudicando a sua saúde com o excesso de trabalho. […] Se os patrões sempre ouvissem os ditames da razão e da humanidade, teriam inúmeras ocasiões para tentar moderar, em vez de estimular, a atividade de muitos de seus operários. Iremos descobrir, creio, em todo tipo de atividade, que o homem que é capaz de trabalhar com moderação, a ponto de poder trabalhar de modo constante, não apenas preserva sua saúde por mais tempo, mas, ao longo do ano, desenvolve a maior quantidade de trabalho.
Outro trecho que destaco é quando o autor trata das desigualdades da natureza dos empregos. Smith destaca a relação de confiança de alguns profissionais como médicos e advogados e justifica seus altos rendimentos pelo alto investimento de seus estudos e pela dificuldade de se destacar na profissão e até compara e advocacia com a loteria, parece que hoje ainda não é muito diferente.
[…] Confiamos nossa saúde aos médicos, nossa fortuna e, às vezes, nossa vida e reputação aos advogados e aos procuradores. Essa confiança não poderia de modo seguro, ser depositada em pessoas de condições muito simples ou baixa. Sua recompensa deve ser tal, portanto, que possa lhes conferir aquela posição na sociedade que deles exige uma confiança tão importante. O longo tempo e os elevados custos que devem ser investidos em sua educação, quando combinados com essa circunstância, necessariamente aumentam ainda mais o preço de seu trabalho.
Na maioria dos ofícios mecânicos, o sucesso é quase certo, mas isso não acontece nas profissões liberais. Coloque seu filho para trabalhar como aprendiz de sapateiro e verá que há poucas chances de ele não aprender a fazer um par de sapatos; mas experimente mandá-lo para estudar as leis e verá que há pelo menos 20 chances contra uma de que ele terá proficiência suficiente para viver desse trabalho. Em um jogo de loteria perfeitamente justo, aqueles que levam os prêmios devem ganhar tudo o que é perdido pelos que não acertam nenhum número. Em uma profissão em que 20 fracassam contra um bem sucedido, esse um deve ganhar tudo que deveria ser dos 20 mal sucedidos. O consultor jurídico que, talvez, com quase 40 anos de idade, começa a ganhar algo com sua profissão, deve receber a retribuição não somente de sua própria educação tão tediosa e cara, mas a de mais 20 outras pessoas que provavelmente jamais irão ganhar nada por ela. […] A loteria da advocacia, portanto, está muito mais longe de ser justa e perfeita, e é, assim como muitas outras profissões liberais e honradas, no ponto do ganho pecuniário, evidentemente mal remunerada.
O trecho abaixo eu destaco para comparar com a ideia de outro autor, este contemporâneo: Domenico de Masi. Masi é autor da teoria do Ócio Criativo, e defende entre outras coisas a redução da jornada de trabalho. Assistindo a uma entrevista sua ao Programa Roda Viva, entre outras coisas ele falou sobre a crise do capitalismo, não do capitalismo de Smith, mas do capitalismo atual baseado no consumo. Masi critica o acúmulo de riqueza e dá o exemplo de Silvio Berlusconi, que tem uma renda mensal equivalente a renda de doze mil operários. O que acontece é que Berlusconi não consome mensalmente o que consumiriam doze mil empregados, e esta renda fica acumulada, não circula. Numa economia baseada no consumo o sistema acaba entrando em crise.
[…] O homem rico não consome mais comida do que seu vizinho pobre. Em qualidade, ela pode ser muito diferente, e sua seleção e preparo pode exigir mais trabalho e arte, mas, em quantidade, ela é quase a mesma. No entanto, compare o palácio suntuoso e o enorme guarda-roupa do primeiro com o barraco e os poucos trapos do outro, e perceberá que a diferença entre suas roupas, moradia e móveis domésticos é quase tão grande em quantidade quanto em qualidade. O desejo da comida é limitado em todas as pessoas pela estreita capacidade do estômago humano, mas o desejo das conveniências e dos ornamentos de construção, roupas, utensílios domésticos e móveis parece não ter limite. Aqueles, portanto, que possuem o controle de mais comida do que podem de fato consumir, estão sempre dispostos a trocar o excesso, ou, o que dá no mesmo, seu preço, por gratificações desse outro tipo. O que está além de satisfazer o desejo limitado é dado para o entretenimento daqueles desejos que não podem ser satisfeitos, mas parecem ser realmente infinitos. Os pobres, para conseguir comida, esforçam-se para satisfazer aqueles desejos dos ricos e, para conseguir o que precisam com mais garantia, competem entre si no processo de baratear e aperfeiçoar seu trabalho.
O trecho a seguir resume o pensamento europeu sobre suas colônias na América:
[…] América é em si um novo mercado para a produção de suas próprias minas de prata, e conforme avança na agricultura, indústria e população, torna-se muito mais ágil do que a maioria dos países prósperos na Europa, e sua demanda deve aumentar muito mais rapidamente. As colônias inglesas formam um mercado totalmente novo que, em parte por moedas e em parte por placas, exige um crescimento contínuo do suprimento de prata ao longo de um imenso continente onde não existia demanda alguma antes. A maior parte, também, das colônias espanholas e portuguesas é formada de mercados totalmente novos. Nova Granada, o Yucatan, Paraguai e Brasil eram, antes de ser descobertos pelos europeus, habitados por nações selvagens que não conheciam as artes nem a agricultura. Um considerável grau de ambos foi agora introduzido em todos esses lugares. Até mesmo México e Peru, apesar de não poderem ser considerados como mercados novos, são certamente muito mais extensos do que eram antes. Depois de todos os maravilhosos contos que foram publicados com relação ao esplêndido estado desses países antigos, todos os leitores, com qualquer grau de julgamento sóbrio, da história de sua descoberta e conquista, poderão discernir que, nas artes, na agricultura e no comércio, seus habitantes eram muito mais ignorantes do que os tártaros da Ucrânia são hoje.
E aqui encerro minha “colcha de retalhos”, sobre o Livro I do estudo “ A Riqueza das Nações”. Como mencionei no início preferi destacar a visão do autor sobre o comportamento humano e não me detive tanto em aspectos econômicos. Também procurei mesclar com outras coisas que li, por isso chamei de colcha de retalhos.
Quando leio estes livros de autores americanos ou europeus tenho a impressão que paramos no tempo, ás vezes seus livros me parecem tão contemporâneos, ou talvez o comportamento humano não tenha mudado tanto assim. Mas não concordo que sejamos selvagens ignorantes, apenas tínhamos nossa cultura, primitiva, mas era nossa.
Enfim, esta é minha opinião. Aguardo os comentários sejam concordando ou discordando comigo.
Letícia Portella