Adam Smith – A Riqueza das Nações livro I ( I )
economia, divisão do trabalho, filosofia econômica, história do desenvolvimento, teoria clássica
Adam Smith – A Riqueza das Nações livro I ( I ) Olá amigo (as), Aqui estão os primeiros trechos de A Riqueza das Nações. O livro é dividido em cinco partes, vou compartilhar por enquanto a primeira delas, chamada de Livro I. Observem os apontamentos feitos pelo autor e publicados em 1776. Boa leitura! Letícia Portella Obra A Riqueza das Nações Livro Livro I Autor Adam Smith Data 1776 Semana I Capítulo Capítulo I – Da divisão do trabalho Trechos […] Esse grande aumento da quantidade de trabalho que, em consequência de sua divisão, com o mesmo número de pessoas é capaz de realizar, deve –se a três diferentes circunstâncias: a primeira, o aumento de destreza de todos os operários; a segunda, a economia de tempo que geralmente se perde ao transferir –se de uma espécie de trabalho para outra; e, por último, a invenção de um grande número de máquinas que facilitam e reduzem o trabalho, capacitando um homem a realizar o trabalho de muitos. […] Um homem normalmente perambula um pouco ao passar suas mãos de um tipo de trabalho para outro. Quando inicia o novo trabalho, dificilmente está empenhado e disposto o suficiente; sua mente, como dizem, não chega lá, e por alguns instantes ele prefere se entreter do que começar de imediato. O hábito de divagar e de não se aplicar de modo cuidadoso, que é natural, ou até necessariamente adquirido por todo trabalhador rural que é obrigado a trocar de trabalho e ferramentas a cada meia hora, e colocar suas mãos em 20 diferentes tipos de operação quase todos os dias de sua vida, confere-lhe o direito de atuar de modo indolente e preguiçoso, bem como de alguma forma incapaz de qualquer aplicação vigorosa mesmo nas ocasiões de maior urgência. Independentemente, portanto, de sua deficiência em destreza, somente essa causa deve sempre reduzir de maneira considerável a quantidade de trabalho que ele é capaz de realizar. […] Nos primeiros motores de combustão, um garoto era sempre chamado para abrir e fechar, de modo alternado, a comunicação entre a caldeira e o cilindro, toda a vez que o pistão subia ou descia. Um desses garotos, que adorava brincar com seus companheiros, observou que, ao amarrar um cordão do cabo da válvula que abria essa comunicação até uma outra parte da máquina, a válvula abria e fechava sozinha, e o deixava livre para brincar com seus colegas. Um dos maiores aperfeiçoamentos feitos nessa máquina, desde que foi inventada, resultou da descoberta de um garoto que queria reduzir seu próprio trabalho. Todas as melhorias nesse maquinário, porém, nunca foram, de modo algum, resultado das invenções daqueles que tinham de usar as máquinas. Muitos aprimoramentos são resultado da perspicácia dos criadores das máquinas, quando sua fabricação se torna o negócio de um comércio específico; e também de alguns daqueles que são chamados de filósofos ou homens de especulação, cujo trabalho é não fazer nada, mas observar tudo; e que, por causa disso, são geralmente capazes de combinar as forças dos objetos mais distantes e inusitados. No progresso da sociedade, a filosofia ou a especulação se torna, como qualquer outro trabalho, a única ou principal atividade e ocupação de uma classe específica de cidadãos. Assim como em qualquer outra função, ela é subdividida em um grande número de diferentes ramificações, cada uma das quais proporcionando ocupação para uma determinada tribo ou classe de filósofos, e essa subdivisão de empregos na filosofia, bem como em qualquer outro negócio, aprimora a destreza, além de economizar tempo. Cada indivíduo torna-se mais especializado em sua própria ramificação, mais trabalho é desenvolvido no total e a quantidade de ciência também aumenta de maneira considerável. Capítulo Capítulo II – Do Princípio que leva à Divisão do Trabalho Trechos […] No entanto, o homem quase sempre consegue o auxílio de seus irmãos, e de nada lhe adianta contar apenas com sua própria benevolência. Ele terá mais chance de prevalecer se for capaz de usar seu amor próprio a seu favor, e mostrar às outras pessoas que lhes será vantajoso fazer por ele aquilo que necessita. Aquele que oferece a outro a troca de qualquer espécie se mostra disposto a fazer o mesmo. Dê-me aquilo que quero, e você terá o que quer, é o significado dessas ofertas; e é dessa maneira que obtemos uns dos outros a maior parte de tudo aquilo que precisamos. […] Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração de seu próprio interesse. Referimo-nos não à sua humanidade, mas ao seu amor próprio, e jamais falamos com eles de nossas próprias necessidades, mas de suas vantagens. […] Pelo fato de ser por acordos, trocas ou compras que obtemos uns dos outros a maior parte daquelas necessidades mútuas que esperamos, temos a mesma disposição de permuta que originalmente causa a divisão do trabalho. […] A diferença de talentos passa então a ser notada e aumenta consideravelmente, até que, finalmente, a vaidade do filósofo se mostra disposta a reconhecer que existe pouca semelhança entre eles. No entanto, sem a disposição de permutar, trocar e cambiar, todas as pessoas devem alcançar para si mesmas tudo aquilo que é necessário e conveniente na vida que desejam. Todos devem ter tido as mesmas obrigações a cumprir, o mesmo trabalho a realizar, e não poderia existir essa diferença de trabalho se não por sua diferença de talentos. […] Entre os homens, ao contrário, as mais diferentes habilidades são de uso particular, mas as diferentes produções de seus respectivos talentos, pela disposição geral de trocar, permutar e cambiar, são consideradas uma ação comum, em que todos podem adquirir qualquer parte da produção que resulta dos talentos de outros homens que ele possa desejar. Capítulo Capítulo III – Que a Divisão do Trabalho é limitada pelo tamanho do Mercado Trechos […] Há alguns tipos de indústria, inclusive algumas bem simples, que só podem existir em grandes cidades. Um carregador, por exemplo, só consegue arranjar emprego e subsistência em um lugar grande. Um vilarejo representa um local limitado demais para ele; mesmo uma cidade comum com poucos comércios será de pequenos vilarejos que se espalham por um lugar tão deserto como a região montanhosa da Escócia, todo o fazendeiro tem de ser também açougueiro, padeiro e cervejeiro de sua própria família. Nessas situações dificilmente podemos encontrar um ferreiro, um carpinteiro ou um pedreiro a menos de 30 quilômetros uns dos outros. As famílias espalhadas, que vivem a uma distância de 10 a 15 quilômetros, têm de aprender a realizar por si mesmas um grande número de pequenos trabalhos, pelos quais, em lugares mais populosos, pediriam assistência de trabalhadores especializados. […] Com relação ao transporte por água, um mercado mais extensivo se abre para todos os tipos de negócios do que o transporte por terra é capaz de proporcionar, por isso é pela costa marítima, e ao longo das margens de rios navegáveis, que as indústrias de todos os tipos naturalmente começam a se subdividir e se desenvolver, e somente depois de muito tempo é que essas melhorias se estendem para o interior dos países. […] Assim, por todas as vantagens do transporte marítimo, é natural que as primeiras melhorias de arte e indústria aconteçam onde essa conveniência abre o mundo todo para que um mercado crie todos os tipos de trabalho e que, também por isso, demore tanto para se estender às partes mais remotas do campo. O interior dos países pode por muito tempo não ter outro mercado para a maior parte de seus produtos que não as cidades que se localizam ao seu redor, e que os separa da costa marítima e dos grandes rios navegáveis. A extensão de seu mercado, portanto, será por muito tempo proporcional às riquezas e ao tamanho da população do campo e, consequentemente, sua melhoria sempre será posterior ao aperfeiçoamento de seu país. […] As nações que, de acordo com as mais garantidas provas da história, parecem ter sido primeiramente civilizadas, foram aquelas que se instalaram perto da costa do Mar Mediterrâneo. Esse mar, de longe a maior baía conhecida no mundo, por não possuir marés, e consequentemente ondas, com exceção daquelas causadas pelo vento, foi, pela calmaria de sua superfície, bem como pelo grande número de suas ilhas e a proximidade de suas praias vizinhas , muito favorável ao início do desenvolvimento da navegação do mundo quando, por sua ignorância do uso da bússola, os homens tinham medo de perder de vista a costa do mar, e também por sua imperfeição na arte de construir navios, abandonar-se em direção às ondas tempestuosas do oceano. […] De todos os países na costa do Mar Mediterrâneo, o Egito parece ter sido o primeiro a cultivar e a aperfeiçoar a agricultura e os processos de manufatura em nível considerável. O Alto Egito não vai além de alguns poucos quilômetros do Nilo e, no Baixo Egito, esse grande rio se desdobra em muitos diferentes canais, o que, com a ajuda de um pouco de arte, parece ter proporcionado uma comunicação por via aquática, não somente entre as grandes cidades, mas entre todos os principais vilarejos, e até mesmo muitas fazendas no campo, quase da mesma forma que acontece com os rios Reno e Maas na Holanda atualmente. A extensão e a facilidade dessa navegação interna foi provavelmente uma das principais causas do aperfeiçoamento precoce do Egito. […] As melhorias na agricultura e nas manufaturas parecem da mesma forma ter acontecido muito cedo nas províncias de Bengala, no leste da Índia e em algumas das províncias orientais da China, embora grande parte dessa antiguidade não seja comprovada por fatos históricos de cuja autoridade nós, nessa parte do mundo, temos certeza de ter acontecido. Em Bengala, o Ganges e diversos outros grandes rios formam um vasto número de canais navegáveis da mesma maneira que o Nilo, no Egito. […] Nenhum comércio que uma nação não possa movimentar por um rio que se divida por um grande número de braços ou canais, e que adentre um outro território antes de chegar ao mar, é capaz de se tornar muito notável pelo fato de isso representar o poder das nações que possuem esse outro território para obstruir a comunicação entre o interior do país e o mar.
Texto originalmente publicado em nossogrupodeleitura