Gustavo Nascimento

Crédito da imagem: De onde surgem os sonhos, de Jaider Esbell,  2019.

Desde o seu lançamento em 1928, o livro Macunaíma – o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade suscita questionamentos e discussões quanto a sua forma literária. No prefácio publicado junto à primeira edição, Mário de Andrade descreve seu texto como uma rapsódia, fato que se devia à composição do livro. Na cultura grega antiga, chamava-se de rapsodo o artista popular que viajava de cidade em cidade para recitar poemas épicos, costurando cantos de antigas tradições. É daí, então, que Andrade retira a classificação de seu livro: uma rapsódia, um “canto costurado”.

Para a construção da narrativa do herói, Mário de Andrade apropriou-se assumidamente de Von Roraima zum Orinoco, publicado por Theodor Kuhn-Grunberg, além de outros textos de autores como Capistrano de Abreu, Couto de Magalhães, Barbosa Rodrigues, e de contos tradicionais brasileiros, provérbios e canções populares. “Gastei muito pouca invenção neste poema fácil de escrever”, escreve Andrade, reconhecendo que a apropriação de material textual já existente é um procedimento que assegura também a criação literária original que é Macunaíma.

Nesse sentido, me parece que o termo rapsódia fornece uma saída para Mário de Andrade conseguir driblar as duras críticas que recebeu de seus pares por fazer da apropriação um procedimento de criação. Além disso, a rapsódia parece responder com eficiência ao compromisso de Mario de Andrade com a investigação da identidade brasileira, que  reconhece como múltipla e miscigenada, como fica claro na visita de Macunaíma a um terreiro de candomblé:

“… O pai nosso Exu de cada dia nos dai hoje, seja feita vossa vontade assim também no terreiro da senzala que pertence o nosso padre Exu, por todo sempre que seja, amém!… Glória pra pátria jeje de Exu!”  

 O herói Macunaíma, que na mitologia indígena é o Grande Mal, ora para Exu – entidade de candomblé – com uma linguagem que apela semanticamente para a oração católica. Assim, o trecho realça o sincretismo religioso, como metonímia da cultura brasileira entendida como um mosaico, como fica claro em tantos outros episódios da obra. .

Também na troca de correspondência com o escritor Raimundo Moraes, Mário de Andrade  recorre ao termo rapsódia para falar da composição de Macunaíma e afirma que são os nordestinos os rapsodos atuais, pois servem-se do mesmo processo dos cantadores da antiguidade: “tudo o que escutam e leem vão pros seus poemas, se limitando a escolher entre o lido e o escutado e a dar ritmo ao que escolhem que caiba nas cantorias”. Mais adiante, na mesma carta, completa “Isso é o Macunaíma e esse sou eu”.

Meu interesse em Macunaíma é o procedimento da apropriação reconhecido pelo próprio Mário de Andrade. No entanto, gostaria também de expandir essa discussão para além do recurso textual, considerando os debates atuais em torno da apropriação cultural, a fim de pensar a repercussão do gesto modernista em relação à representação da identidade indígena, à utilização de seus mitos ancestrais.