Gustavo Nascimento

Crédito da imagem: Parixara, Jaider Esbell
Apresentei, recentemente no Congresso UFBA, a comunicação intitulada “Escrita não-criativa e apropriação na literatura brasileira”. Ao observar o movimento de apropriação no livro Opisanie Swiata, de Verônica Stigger, a pesquisa destacou a relação que o livro estabelece com o modernismo brasileiro e, ao mesmo tempo, analisou a prática da apropriação na literatura brasileira.
A apropriação na arte torna-se um procedimento desde as vanguardas, mas quais as relações possíveis com a tradição pela apropriação feita por muitos escritores na contemporaneidade? Quais são as aproximações e distanciamentos desses procedimentos? Na atual etapa da pesquisa, o objetivo será pensar as tensões envolvendo a apropriação literária em diferentes momentos da literatura brasileira. O problema teórico é suscitado a partir da leitura da peça teatral Makunaimã: o mito através do tempo, de autores diversos.
Makunaimã: o mito através do tempo é uma peça dividida em dois atos e ressuscita o escritor modernista Mário de Andrade para confronta-ló quanto às questões que tocam a escrita de Macunaíma: um herói sem nenhum caráter, a rapsódia que o consagrou. Dentre as questões discutidas na peça estão o debate sobre a autoria e os direitos autorais, a apropriação cultural, e as transformações sofridas pelo mito indígena na obra modernista. O texto dramático, dá voz ao fantasma de Mário de Andrade e o coloca em diálogo com posições emergentes sobre sua obra. Estão presentes no palco, representantes dos povos taurepang, macuxi e wapichana – porta-vozes do mito – junto a outros personagens como a curadora e o professor universitário que tensionam ainda mais a recepção da obra de Mário de Andrade no contemporâneo.
“De novo esse papo? Já disse que copiei mesmo, ora bolas!”, diz Mário de Andrade na peça. O tema da cópia esteve presente na crítica que o livro recebeu em virtude da apropriação feita por Andrade dos mitos narrados por Akuli Taurepang a Theodor Koch-Grunberg, que posteriormente os publicou. O tema da apropriação reaparece na peça com nova roupagem, já que os personagens expõem um coro de vozes que reivindica a retomada de narrativas pelos próprios sujeitos indígenas e discutem as implicações que a apropriação feita por Mário de Andrade (mas também por Koch Grunberg) têm sobre a reverberação do mito em nossa cultura.
A apropriação, nesse sentido, não é apenas um procedimento textual, mas também uma questão da cultura. O que por sua vez implica também pensar como as ideias de autoria e cópia expandem o problema teórico tal como tenho entendido a apropriação no contexto na literatura brasileira.