06
Jan26
Maria do Rosário Pedreira
Ontem falei aqui de um livro escolhido como o melhor romance do ano, mas igualmente presente em todas as listas em lugar de destaque estava o notável As Cartas do Boom, publicado na Dom Quixote pela minha colega Cecília Andrade, que tem todas as razões para estar orgulhosa do seu feito. Trata-se da correspondência trocada por quatro génios literários no período do boom da literatura latino-americana (caracterizada também pelo realismo mágico, mas muito mais do que isso): Julio Cortázar, o grande contista e autor de Rayuela; os nobelizados García Márquez (autor da obra-prima Cem Anos de Solidão) e Mario Vargas Llosa (penso que um dos primeiros posts deste blogue foi sobre o seu A Tia Júlia e o Escrevedor); e o genial Carlos Fuentes, talvez menos conhecido do que os seus colegas entre nós, o que creio constituir uma grande injustiça, mas popularizado em Portugal pela sua autobiografia, Aquilo em Que Acredito, vencedora de vários prémios. A tradução desta correspondência de excepção é do editor João Rodrigues, que deve ter adorado o trabalho. E o que é notável nestas cartas trocadas ao longo de vários anos não é só a sua qualidade literária, mas o facto de os seus autores não se comportarem como concorrentes, agirem até, nas palavras do crítico Marco Alves, «como uma irmandade, sem rivalidades, sem azedumes». Penso que já ninguém escreve cartas e que os e-mails eventualmente trocados entre autores serão prosa despachada e utilitária ou pouco mais. Penso também que o individualismo hoje é maior e que os escritores não pertencem a escolas nem grupos e muitos preferem não conhecer sequer os seus confrades. Daí este ser provavelmente um dos grandes testemunhos de um tempo em que os escritores comunicavam entre si como uma verdadeira classe à parte. Não percam.