Por José Eduardo Ribeiro Nascimento
Demorei mas terminei. Depois de um tempo com a leitura parada (acho que foram mais de 2 meses), recomecei, e na última segunda feira pude ler a última frase do livro, ditas pelo próprio Edmond:
“Portanto, vivam e sejam felizes, filhos diletos do meu coração, e nunca se esqueçam de que, até o dia em que Deus dignar-se a desvelar o futuro para o homem, toda a sabedoria humana estará nestas duas palavras: Esperar e ter esperança.
Espetacular, magnífica, cativante, divertida, repleta de personagens interessantes e carismáticos. É muito difícil dizer qual o melhor livro que já lemos na vida, entretanto digo sem medo que esse divide o 1º lugar, desde já, com o Senhor dos Anéis. Esse último ocupa lugar de honra não apenas por sua história, seus personagens, a saga, mas principalmente pelo mundo, o universo tolkieniano, como é muitas vezes chamado.
Porém a história de Edmond é espetacular, a humanidade dos personagens, suas motivações, a honra da sociedade do séc. XVIII; olhem o que disse Monte Cristo quando, mesmo depois de 10 anos planejando sua vingança, desiste dela por pedido da mulher que ele amou:
“A Senhora diz isso; que diria então se soubesse a extensão do sacrifício que lhe faço? Suponha que o senhor supremo, após criar o mundo, após fertilizar o caos, houvesse se detido a um terço de sua criação para poupar a um anjo as lágrimas que nossos crimes deviam fazer correr um dia de seus olhos imortais; suponha que, após haver tudo preparado, tudo moldado, tudo fecundado, no momento de admirar sua obra, Deus houvesse extinguido o sol e rechaçado o mundo para a noite eterna; fará então uma idéia, não, ainda não poderá ter noção do que deixo de ganhar perdendo a vida nesse momento.” – pág. 1078.
Uma coisa interessante (e que posso falar sem medo de estragar quaisquer surpresa do enredo), é a preocupação que Dantès tem em sempre falar em Deus. Ele se intitula “ministro da justiça de Deus”, ou algo assim, sendo que há alguns ótimos diálogos sobre Deus no livro:
Monte Cristo falando: […] Sim, se o tivesse encontrado humilde e arrependido, eu teria, quem sabe, impedido Benedetto de matá-lo, mas vi-o orgulhoso e sanguinário, e premiti que a vontade de Deus se realizasse!
-Não acredito em Deus! – berrou Caderousse. – Você também não acredita… está mentindo… está mentindo…!
– Cale-se – Disse o Abade -, pois está desperdiçando suas últimas gotas de sangue… Ah, não acredita em Deus e morre golpeado por Deus! Ah, não acredita em Deus, e Deus mesmo assim pede apenas uma prece, uma palavra, uma palavra para perdoar… Deus que podia dirigir o punhal do assassino de maneira a que você expiasse na hora… Deus lhe deu quinze minutos para se arrepender… Caia em si, desgraçado, e arrependa-se!
– Não – insistiu Caderousse -, não me arrependo. Deus não existe, a providência não existe, o que existe é apenas o acaso.
– Existe uma providência, existe um Deus – disse Monte Cristo -, e a prova é que aí jaz você, desesperado, negando a Deus, e eu, por minha vez, estou de pé à sua frente, rico, feliz, são e salvo, juntando as mãos perante esse Deus no qual você tenta não acreditar e no qual, entretanto, acredita do fundo do coração. – págs. 1018-1019.
Há várias passagens memoráveis, mas o livro não é feito de frases, passagens, citações. Como o próprio Alexandre Dumas disse (lá embaixo), ele escreve para entreter, “literatura por literatura”, o que importa é a história, maravilhosamente descrita, e os personagens, carismáticos em seus talentos e defeitos. É definitivamente um romance; pura e simplesmente. Definitivamente uma leitura divertida, prazerosa e que ensina bastante.
Edmond Dantès é um marinheiro que, prestes a completar 19 anos, seria nomeado capitão da embarcação Pharaon e casaria com a jovem catalã Mercedes. Amado pelos amigos e pelo chefe, pelo pai e pela noiva, Edmond é alvo da inveja e do ódio de terceiros interessados em seus futuros patrimônios. Planos foram traçados contra ele, foi condenado como bonapartista e preso em uma masmorra. Depois de anos consegue fugir, e graças a uma herança misteriosa na ilha de Monte Cristo começa a ministrar sua vingança.
Assim como em Os três mosqueteiros o livro é simples na linguagem, mas há uma preocupação maior de Dumas em descrever as emoções, que, afinal, o livro é baseado nos diferentes sentimentos, no caráter de algumas pessoas. Até onde se pode ir a fim de saciar seu egoísmo? A vingança é a principal de todas. No local em que estou no livro, página 228, Dantès acabou de descobrir, graças ao Abade Faria, um inteligentíssimo “vizinho de masmorra”, o plano infeliz que tramaram contra ele – Edmond nem desconfiava dos motivos de ter parado ali por seis anos. Levando em conta que ainda tenho mais de 83% do livro pela frente, imagino diálogos muito interessantes e planos mirabolantes da parte de Dantès para alcançar seus inimigos.
Há várias passagens e diálogos memoráveis; destaco esta que é uma definição muito interessante da Filosofia, e que pode interessar a todos nós:
“- O senhor poderia me ensinar um pouco do que sabe – sugeriu Dantès -, nem que fosse para não se entediar comigo. Parece-me agora que deve preferir a solidão a um companheiro sem educação e sem importância como eu. Se consentir no que lhe peço, prometo-lhe nunca mais falar em fugir.
O abade Sorriu.
– Ai de mim, criança! – disse ele. – A ciência humana é limitada, e quando eu tiver lhe ensinado matemática, física, história e as três ou quatro línguas vivas que falo, o senhor saberá o que sei; ora, precisamos de meros dois anos para despejá-la do meu espírito para o seu.
– Dois anos! – exclamou Dantès. – Acha que eu poderia aprender todas essas coisas em dois anos?
– Em sua aplicação, não; em seus princípios, sim. Aprender não é saber; há sabidos e sábios; é a memória que faz os primeiros, é a filosofia que faz os outros.
– Mas é possível aprender filosofia?
– Filosofia não se aprende; a filosofia é a reunião das ciências adquiridas pelo gênio que as aplica; a filosofia é a nuvem reluzente em que o Cristo pôs o pé para subir aos céus.”
– O conde de Monte Cristo, pág. 198-199.

