O caminho e suas histórias
filosofia da vida, fases da vida, envelhecimento, reflexão existencial, superação
A meta, aqui, é de explorar cada cantinho, cada fenda, fincar uma bandeira em cada morro que existe no percurso. Época de muitas descobertas. Maria Paula Curto * No início, o caminho parece longo e cheio de obstáculos. O principal objetivo é se manter de pé. Quase nunca alcançado. Caímos, levantamos, voltamos a cair, voltamos a levantar e ficamos nesse levanta e cai infinito até termos a certeza de que, sim, é possível. Ganhamos alguns joelhos ralados, algumas canelas roxas, mas tudo bem. Mertiolate e arnica – ou Vick Vaporub (na minha época era, junto com a Minâncora, um santo remédio) – resolvem praticamente tudo. Aprendemos que somos mais fortes que os tombos. E que caminhar é preciso. “Caímos, levantamos, voltamos a cair, voltamos a levantar e ficamos nesse levanta e cai infinito até termos a certeza de que, sim, é possível. Na foto, a autora em pessoa.”/ Foto: acervo da autora Com o tempo, essa confiança fica ainda maior e ganhamos a certeza de que podemos tudo. Podemos com todos. Somos invencíveis. Não há estrada que chegue para tamanha vontade de atravessá-la. A meta, aqui, é de explorar cada cantinho, cada fenda, fincar uma bandeira em cada morro que existe no percurso. Época de muitas descobertas. E de algumas decepções. As quedas, agora, são mais perigosas e algumas podem pedir gesso, pontos e anestesia. A geografia do caminho começa a se escrever na pele. O trajeto fica mais arriscado e, talvez por isso mesmo, mais atraente. Apenas caminhar não é mais suficiente. É preciso ultrapassar limites. A partir de agora, nosso ritmo entra em aceleração total. Não observamos mais a estrada, pois temos muita pressa. O objetivo aqui é chegar lá. Não sabemos muito que “lá” é esse, mas o que importa? Vamos acelerando, acelerando, passando por cima de tudo e de todos. Somos engolidos pela fumaça de nós mesmos. A meta aqui é conquistar. Carreira, emprego, casamento. As dores se deslocam da pele para as entranhas. Menos aparentes, bem mais dolorosas. Às vezes pedem divã, tarja preta ou gilete nos pulsos. Aprendemos que não somos invencíveis. Somos humanos. Apodrecemos. Fétidos, conseguimos algumas medalhas, fazemos investimentos. É necessário vencer. “A meta aqui é conquistar. Carreira, emprego, casamento.”/ Foto: acervo da autora No trecho final, começamos a perceber que é melhor desacelerar. Que o percurso é mais interessante que o ponto de chegada. E muito mais bonito. O objetivo, nesse momento, é apenas caminhar, curtir a estrada. Observar a beleza dela. O problema é que, agora, estamos cansados. Muito cansados. Cansados de tanta correria, de tanta velocidade. Olhamos para as nossas conquistas tentando reconhecer nelas o que nos tornamos. Buscando aquilo que poderíamos ter sido. Sem elas. As dores percorrem as veias e entopem artérias. Aqui, a coisa é séria. Pede safena, stent, intubação, diálise. Pensando melhor, a principal meta aqui é adiar a chegada. Mas com qualidade de vida. Vida essa que foi ficando pelo caminho. Resta torcer para que os pedaços que fomos deixando ao longo deste percurso façam parte da estrada de alguém. Continuar a viver é preciso. “No trecho final, começamos a perceber que é melhor desacelerar. Que o percurso é mais interessante que o ponto de chegada. E muito mais bonito. O objetivo, nesse momento, é apenas caminhar, curtir a estrada. Observar a beleza dela.“/Foto: Acervo da autora *Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.
Texto originalmente publicado em Revista Fina