O caso da louça
memórias, finitude, cobiça, anedotas pessoais, luto
Há nesta vida certos momentos em que a nossa pobreza espiritual resolve mostrar sua face mais sórdida e cruel, como a ideia diabólica era me apossar das xícaras durante o velório, a que custo fosse André Filipe – Você vai me desculpando, mas essa aí eu não posso dar – foi logo dizendo dona Anita – Não dou mesmo! Essa louça tem mais de quinze anos. Foi presente de casamento. A tal louça a que se referia dona Anita era um conjuntinho composto por quatro xícaras e seus respectivos pires, todas pintadas à mão em rosa e verde. Uma graça! Eu, que sou doido por louças, cresci logo os olhos e, como sabia que dona Anita estava se desfazendo de algumas coisas num grande bazar, demonstrei interesse. Mas o que se havia de fazer? Presente era presente. E ainda mais de casamento! A louça fazia parte dos chás e lanches da família há anos. O marido já se fora, é verdade, mas as xícaras permaneciam, lindíssimas. Naquele dia me despedi com uma pontinha de tristeza, mas toquei a vida e não pensei mais no assunto. Eis que no fim de 2018 recebi uma ligação que me trazia uma terrível notícia: dona Anita havia morrido. A filha me contava que um enfarte fulminante vitimara a pobre mulher em plena avenida Boa Viagem, durante uma de suas caminhadas matinais. O velório se daria em casa, como antigamente. “Era o desejo de mamãe”, me disse a filha chorosa. Ah, meus amigos leitores, há nesta vida certos momentos em que a nossa pobreza espiritual resolve mostrar sua face mais sórdida e cruel. É quando nossos desejos mais egoístas vêm à tona e nossa capacidade de resistir é colocada em prova. Confesso, envergonhado, que depois do telefonema da filha de dona Anita fui prontamente tomado por uma única ideia fixa, uma obsessão, uma cobiça incontrolável, que a esta altura vocês já devem saber qual era. Isso mesmo: a tal louça. A ideia diabólica era me apossar das xícaras durante o velório, a que custo fosse. A cerimônia começou pontualmente às quatro da tarde. Entrei discretamente e a sala já estava cheia de gente. Familiares e amigos lamuriosos se espalhavam ao redor do esquife onde repousava, muito pálida, a boa dona Anita. Ali, diante daquela cena, senti uma profunda vergonha e me arrependi verdadeiramente de meus pensamentos mesquinhos. Como pude ser tão imbecil? Por uma intervenção divina recuperei o bom senso e decidi esquecer de vez por todas aquelas malditas xícaras. Depois dos cumprimentos formais, me dirigi até uma pequena mesa onde estava servido um lanche frugal. Café, chá, biscoitos e sanduíches mistos. Qual foi minha surpresa quando meus olhos fitaram as tais xícaras bem ali, emborcadas, ainda mais bonitas do que na primeira vez que as vi. Mas que perigo! E se algum desastrado deixasse cair? Ou mesmo algum dos netos da defunta as quebrassem? Eu não podia deixar isso acontecer. Era um insulto à memória de dona Anita. Com as mãos trêmulas, envolvi as delicadas xícaras em guardanapos e guardei na pequena sacola que tinha trazido comigo. Calma, estimado leitor, não é nada disso que você está pensando. Àquela altura eu já tinha me libertado dos pensamentos criminosos e pretendia devolver a louça assim que o velório acabasse. Finda a cerimônia, fui logo pegar a sacola para cumprir o prometido quando deixei escapar um pequeno grito ao perceber que a sacola havia sumido! Percorri os olhos entre os que saíam, mas havia inúmeras sacolas iguais, seria impossível encontrar a que continha a louça. Pensei em perguntar à uma das filhas, mas como explicaria as xícaras em minha sacola? Sufocado, sentindo meu rosto em brasa, entrei em pânico e saí correndo em direção ao ponto de ônibus. Nunca mais falei com ninguém daquela família, nem jamais soube do paradeiro da louça. Mas vez ou outra ainda me pego pensando nela com um suspiro de desejo. André Filipe nasceu em 1992. Jornalista e escritor. Vive em Recife
Texto originalmente publicado em Revista Fina