... «Apenas a forma em que se envolvem as coisas e com que se indumenta a história dos homens é mutável, que no mais continua a prefixa eternidade. Por baixo da corrente de ideias, que hoje preponderam, defluem outras que, vindas de mais longe e realizadas, cederam àquelas a superfície do golfo social. Essas traduzem a substancialidade em arte e beleza. Mediante elas, o seu tonus e quantum, se pode ajuizar na leitura dos Lusíadas que está ali o tombo poético da Pátria Portuguesa. Sentimentos e paixões particulares para enquanto durar o mundo. Do mesmo modo, quanto mais se lêem os sonetos e restantes líricas, mais perfume de beleza se exala daqueles ritmos de ouro e cristal. Mas os seus estos de amargor, esperança e desesperança, pessimismo e reconforto, languidez e agilidade, desencanto, enternecimento e frescura do coração só se compreendem com um homem profundamente infeliz, espezinhado da vida desde o berço, sobre quem se encanzinou a morfina. Não se cinture o pobre grande homem em precintas de múmia vendidas no bazar da virtude comum. Acabava por não interessar ninguém. O essencial é firme nele como o bronze, e tal perdurabilidade é o que nos importa. Não se tente emascular a crítica em nome duma discrição farisaica, grotesta de todo, que tal magistratura só viril e livre pode tornar-se fecunda e suscitadora de beleza. Todas as dúvidas, todas as suspeitas, todas as conjecturas são salutares em matéria de espírito. Rígidos são os cadáveres. Por minha parte, opto a que digam mal de mim com algum fundamento, do que digam só bem grato Deo.» ...

        (continua)