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Após o lançamento de Torto Arado, em 2019, o escritor Itamar Vieira Júnior vem colhendo os louros de seu romance, sucesso de vendas e aclamado pela crítica
Giovana Proença
William Faulkner, autor símbolo do retrato da decadência regionalista norte-americana, retirou o título de sua maior obra, O som e a fúria, de uma citação de Macbeth, uma das mais proeminentes tragédias shakesperianas: “A vida […] é uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significa nada”.
Torto Arado, romance de estreia de Itamar Vieira Junior, vencedor do Prêmio Leya de 2018 e do Jabuti 2020, aproxima-se em tópicos dos versos dramáticos. Sem dúvidas, estamos diante de uma história de sons – cantigas, encantos, discursos inflamados, o fustigar da enxada na terra – permeada por um grande silêncio.
A fúria se faz presente e movimenta a narrativa em esquema quase euclidiano, forças contrárias de destruição marcam a terra, a aridez duela com o rio de sangue das águas. Prosador desde criança, Itamar cita Faulkner, junto a nomes como Toni Morrison e Jorge Amado como referência, e afirma que a repercussão positiva do romance o fez sentir de fato o que é ser escritor.
O homem, e sobretudo, a mulher, vivenciam no romance a obstinação das opressões, e assim surge a luta semeada de cabeça baixa e olhar altivo no arado. A divergência está em quem conta a história, não há idiotas na fazenda de Água Negra, pelo menos não entre os trabalhadores; as vozes que se colocam como narradoras impressionam pela consciência narrativa aguçada e o alto grau de percepção do mundo que conhecem.
“Há histórias que só podem ser contadas por um coro.”, defende o autor. O significado é arado por Itamar Vieira Junior com habilidade e maestria na condução de uma história repleta por estórias, em mise en abyme; a leitura do romance torna impossível a crença na afirmação de que a vida não significa nada. Polifônico, os silêncios de Torto Arado gritam na gravitação de um acidente.
O brilho da faca de marfim reluz, acentuando dois reflexos, as irmãs Bibiana e Belonísia. Duas vozes narrativas que se fundem pelo corte afiado da lâmina e uma língua arrancada. Unidas, a irmã com voz torna-se tradutora do silêncio da irmã muda, mas com a pulsão do tempo e da juventude, outra vez se dividem. Bibiana segue o caminho dos discursos inflamados, da mudança, da luta por terra, assume a palavra quilombola; enquanto Belonísia resiste as opressões de gênero e torna-se, a seu modo, também líder.
A narrativa em reflexos duplos pela voz das duas irmãs, ganha consistência na terceira parte do romance, pelo ponto de vista onisciente de uma encantada, entidade espiritual do Jerê. A narradora metafísica nos entrega os silêncios dos mistérios que permeiam a narrativa, e evidencia as transformações da comunidade, ressentida com o abandono das tradições espirituais.
Itamar Vieira Junior constrói e cria um novo regionalismo, uma nova face de renovação da temática que perpassou a primeira metade do século XX na literatura brasileira. Entretanto, questiona o rótulo regional “Os escritores dito regionalistas escreveram a partir de seus centros. O termo ficou por parte da crítica e dos estudiosos.” Torto Arado se passa em um cenário rural a margem dos centros urbanos ascendentes, permeado por violência, magia, afetos e laços.
Embora o romance se aproxime do realismo mágico ,Itamar contesta que a narrativa não parecerá tão mágica se tivermos a capacidade de nos deslocar para a perspectiva das personagens. Acima de tudo, o romance é pautado no mais profundo realismo de denúncia. Na fazenda de Água Negra a força do povo negro, descendente de escravizados, é cortada pelos rios de sangue da opressão, no microcosmo de poder do mundo que ainda guarda profundas heranças coloniais.
Em paradoxo, o protagonismo feminino resiste a queda de braço com as violências de gênero, enquanto a submissão e o domínio senhorio se perpetuam. Itamar acredita que não há nada que não possa ser ouvido, “Mesmo os que, literalmente, pareçam não ter voz.” Personagens silenciadas historicamente – nada mais significativo do que uma língua mutilada na infância – narram sua própria história com aguçada consciência narrativa. O romance de Itamar Vieira Junior gravita em torno de silêncios que se respondem ao longo da leitura, em gritos, sussurros, cantigas e sons da terra.
Um mundo de heranças coloniais, construído por descendentes de escravizados, é marcado acima de tudo, pela resistência. As transformações chegam devagar pela estrada de terra e mudam em proporções as regras de um microcosmo de opressões com a conquista de direitos. O filho de Bibiana, já rapaz, deixa Água Negra, terra em que seus antepassados se fixaram em obstinação resignada para estudar na cidade, marcando os primeiros passos para fora do mundo esquecido à margem.

O arado na voz calada pela lâmina é um grunhido torto, intraduzível grito de força. A terra encantada perde duelo com o realismo da violência que paira suspensa, e o combate às injustiças. Mas não nos enganemos, a força antepassada está na movimentação da luta. O realismo mágico colhe frutos nas páginas de Torto Arado. “Sobre a terra há de viver sempre o mais forte”. Itamar Vieira Junior finaliza com a exaltação da força do povo de Água Negra, e de tantos outros calados pela lâmina afiada da opressão. “Não haverá amanhã sem luta”, alcunha.
Itamar, como foi o despertar da sua vocação para a escrita e sua trajetória até o Prêmio Leya de 2018 por Torto Arado?
Eu escrevo desde criança. Ao aprender a ler e escrever, passei a criar histórias. Mas só me senti seguro para publicar bem mais tarde. Para isso tive que submeter meus textos a concursos e prêmios literários. Era uma forma de ser avaliado por especialistas em literatura. Foi assim que cheguei ao Prêmio LeYa.
De que modo a história de Torto Arado surgiu para você? Você pode contar um pouco sobre seu processo de escrita?
Surgiu muito cedo ainda na adolescência, influenciado pela leitura dos romances da geração de 1930 e 1945. Acumulei informações e anotações ao longo de muitos anos. Quando me senti pronto para escrever, trabalhei por 18 meses muito disciplinado.
Quais são suas principais influências literárias?
É muito difícil falar sobre influências, porque acho que tudo que li ao longo da vida formou o leitor e o escritor que sou. Agora se você me perguntar sobre os autores que tem destaque em minha estante posso citar Jorge Amado, Toni Morrison, Lima Barreto, Faulkner, Herman Hesse e Clarice Lispector e muitos outros.
O realismo mágico, gênero muito renomado na América Latina, está muito presente no livro. Como foi construir isso?
Acho que a narrativa chamada de mágica pela crítica e leitores não parecerá tão mágica se tivermos a capacidade de nos deslocar para a perspectiva das personagens. O livro narra uma cosmovisão de mundo diversa e o elemento transcendental é parte disso. Eu apenas escrevi a partir da perspectiva das personagens, respeitando suas crenças e visões de mundo.
Nesse mesmo sentido, como foi trazer um novo olhar para o regionalismo que tanto permeou a literatura brasileira no século XX?
Eu não costumo usar a palavra regionalista para classificar a literatura da geração de 1930 e 1945. Acho reducionista, porque os escritores dito regionalistas escreveram a partir de seus centros. O termo ficou por parte da crítica e dos estudiosos. Para mim ler algo sobre São Paulo ou Rio de Janeiro poderia parecer “regional”, porque é provável que não se aproxime de histórias que, particularmente, vivo na Bahia, por exemplo.
De que maneiras sua formação em estudos étnicos influenciou a escolha por compor uma história com tantos elementos da cultura afro-brasileira?
A minha formação em estudos étnicos e africanos tem relação inicialmente com a minha atuação como servidor público. Também tem relação com a busca por minha ascendência. Mas contribuiu, sim, de forma inegável para que eu tivesse a capacidade de me deslocar para o lugar do outro, experimentar suas vidas a partir de suas perspectivas.
Uma das possíveis interpretações de Torto Arado gira em torno da importância da voz. Como você enxerga a representação que o livro traz de uma realidade muitas vezes invisibilizada?
Como trabalho literário eu falo por mim, não escrevo por ninguém. Mas o direito à voz é lembrado a todo o momento seja de maneira simbólica ou no próprio discurso das personagens. E de fato são personagens que foram silenciadas por nossa sociedade e até mesmo pela literatura durante séculos. Mas as elas nos mostram que não há nada que não possa ser ouvido. Mesmo os que, literalmente, pareçam não ter voz.
A história conta com três narradoras diferentes. O que você pensou com essa divisão?
Que nenhum narrador é confiável. Que a história não é sentida da mesma maneira por todos, há subjetividades e percepções diferentes. Há histórias que só podem ser contadas por um coro.
O que a repercussão do livro trouxe para sua vida?
Mudou a minha relação com a própria escrita, na medida em que me vejo mais profissional por conta desse lugar que passei a ocupar quase que involuntariamente. Eu passei a sentir de fato o que é ser um escritor.
Que mensagem você quer passar com sua escrita no Brasil de hoje?
Que não haverá amanhã sem luta.