Fica decretado que todas grades de todas as janelas são troncos e que neles todos os pássaros são tenores./ Foto: acervo da autora. É no vazio que se constrói o lastro. Lá dentro, ajeita-se uma cama de palha e tudo se resolve no abismo natural. Esquecemos que o abismo é natureza. O pássaro não esquece a ausência de chão. Sibélia Zanon* Olho pela janela e tento pensar o mundo com os sentidos dos pássaros. Se me crescesse uma pena, eu arriscaria um voo. A confiança habita o corpo que constrói ninho sem chão. Sem pena, o corpo da gente pede abrigo mais robusto. Se me crescesse uma pena, eu elegeria uma árvore. Arnaldo, o Antunes, canta que a nossa casa é onde a gente está. Gaston Bachelard, o poeta, diz que a casa é um verdadeiro cosmos. Um mundo para experimentar em terra firme ou num galho de árvore que cede à pressão do ar. Resistente é quem tem flexibilidade. Enquanto a casa conhece as retas, o ninho conhece as curvas. Do barro se faz um prédio arredondado, dos gravetos se faz uma esfera com porta, da palha se faz uma tigela. O vento passa e planta o lembrete da incerteza e o mundo continua redondo. Nesses nossos dias, em que a casa é saúde e segurança, trabalho e descanso, abro a janela e penso os ninhos dos pássaros. Eles misturam ternura e desapego nos mesmos gravetos. No corpo de um passarinho mora uma liberdade que dispensa contrato e usucapião. Pica-pau, tucano e periquito preferem oco de árvore como morada. É no vazio que se constrói o lastro. Lá dentro, ajeita-se uma cama de palha e tudo se resolve no abismo natural. Esquecemos que o abismo é natureza. O pássaro não esquece a ausência de chão. Tenho pensado em me transformar em ornitóloga por aproximação. Sem o nome e sem a teoria. Só o canto. O deles e o meu. Os ninhos morando no quintal da casa e a casa tentando se converter em ninho. Ninho provido de afeto e despido de apego demasiado. Porque o corpo também é casa e a casa é onde a gente está. Se a tempestade for exaltada, não existe mais o ninho, mas existirá sempre o voo. Porque o corpo é morada da confiança. *É jornalista, escritora e autora de Espiando pela Fresta.