08
Jul21
Maria do Rosário Pedreira
Muitas vezes falamos aqui no blogue (e uso o plural não de forma majestática mas porque muitos dos que aqui vêm também comentam) sobre o que vai acontecer às nossas bibliotecas no futuro, quando morrermos, sobretudo nos casos em que a geração seguinte não é leitora e não aprecia sequer o livro como objecto. Eu, que nem filhos pari, tenho a suspeita de que, se não oferecer os meus livros ainda em vida a quem goste de ler em papel, eles serão provavelmente vendidos a peso ou entregues para reciclagem por quem cá fique. Um escritor que conheço fez há pouco tempo uma coisa bonita: começou a esvaziar as suas prateleiras e a dá-las aos jovens investigadores que estudam a sua obra nas universidades e não teriam de outro modo possibilidade de adquirir todos esses volumes. Outros autores vendem-nos por junto a um alfarrabista e deixam o que a venda rende na conta bancária, assumindo que aos herdeiros faz mais falta o dinheiro do que a «papelada». António Lobo Antunes, que tem três filhas, decidiu recentemente doar o seu espólio à Câmara de Lisboa, que o instalará em Benfica numa nova biblioteca com o nome do escritor. Além de cerca de 20 000 livros, muitos deles dedicados por confrades portugueses e estrangeiros, e das primeiras edições da sua própria obra, haverá medalhas, certificados de prémios e manuscritos, bem como, por certo, estudos de outros autores sobre a obra lobo-antuniana. A partir de 2022 já poderá ser visitada a nova biblioteca. Em casa de Lobo Antunes, ficarão muitas paredes vazias...