Por José Eduardo Ribeiro Nascimento
Meu gosto pela literatura fantástica é antigo, nasceu na infância, com gibis. Cresceu por influência do RPG, e se firmou quando, enfim, tive a oportunidade de ler O Senhor dos Anéis, que desde então assumiu a ponta na minha lista de livros prediletos. A partir daí li várias séries: A Herança, mais conhecida como “Eragon”, Harry Potter, As Crônicas de Gelo e Fogo, As crônicas do Matador do Rei (O nome do vento e o Temor do Sábio), O Aprendiz de caça feitiço, As Brumas de Ávalon, dentre outras. Mas sempre tive grande curiosidade acerca dessa série aclamadíssima, comparada muitas vezes à obra de Tolkien.
Então cá estou eu com o livro. O livro é um verdadeiro calhamaço, com suas 800 páginas bem diagramadas: perde-se pouquíssimo espaço em cada página, mas isso não deixou a leitura desconfortável. A capa preta, com o desenho em dourado, ficou muito bonita, o que aumentou ainda mais minha vontade de ler.
Sobre o livro: Ele conta a história de três jovens camponeses que vivem em uma região muito afastada do reino, de forma que o império é lembrado apenas nas histórias. Não se vê cobradores de impostos há anos, guardas ou soldados da rainha são quase que uma lenda. Nessa região, conhecida como Dois Rios, eles recebem a visita de criaturas terríveis, e acabam tendo que fugir com uma Aes Sedai (uma bruxa) e seu Guardião (um guerreiro super habilidoso), um menestrel, que insiste em acompanhá-los para contar a história (sim, ele tinha outras motivações…), a pretensa namorada de um dos jovens, que mostra ter uma rara habilidade para seguir o caminho da magia, e a curandeira e líder espiritual da vila. É formado o grupo.
A partir das primeiras páginas eu já comecei a ter as sensações de “já li isso antes”… e essa sensação permaneceu por um longo tempo. Uma vila afastada, onde um simples camponês é o escolhido de uma profecia (nesse caso, três), e sua vila acaba sendo atacada. Isso é Eragon. Toda a história da Roda do Tempo, o Olho do mundo, me lembrou bastante A torre Negra, de Stephen King, a descrição das cidades, e as viagens, lembra bastante O Nome do Vento. Enfim, foram inúmeras as vezes que me peguei lendo o Olho do Mundo, e lembrando de outros livros. Claro que isso por si só não é nada demais. Muito provavelmente os autores dos livros que citei leram Robert Jordan, e usaram-no como fonte de inspiração. O que me incomodou foi que muitas vezes a obra “derivada” era melhor que a que a inspirou, e isso é ruim. O Senhor dos Anéis, por exemplo, é fonte de inspiração pra praticamente qualquer livro de fantasia escrito desde sua publicação, mas nenhum deles nunca superou a obra de Tolkien. Mas por que isso acontece?
Em primeiro lugar, a escrita de Robert Jordan é muito simples. Ele criou um bom plano de fundo pra história, com a Roda do Tempo, o Padrão, que liga todos em sua teia (temas muito citados, mas pouco explorados nesse primeiro livro), descreve as coisas detalhadamente, mas sem excessos, o que mostra que o principal para ele é a história em si, e não o mundo, como era para Tolkien. Dessa forma, Jordan não nos conquista pela forma, diferente de Tolkien, professor e linguista brilhante, que descreve as coisas de maneira sublime. Em segundo lugar, um detalhe que parece simples, mas que é de importância primária em um livro de ficção fantástica são os nomes, seja de lugares ou pessoas. Os nomes nos dizem pouco em O Olho do Mundo. Exemplo: Os monstros equivalentes a Orcs são chamados Trollocs. Mas esse nome não convence. São montros estúpidos. Seu nome deveria lembrar um grunhido, ou um palavrão. Outro ponto negativo é a falta de novidades que permeia as 600 primeiras páginas do livro. Explicando: tudo que se lê em O Senhor dos Anéis é novo; em cada parágrafo, você se sente perambulando pela Terra Média, seguindo as aventuras de Frodo e companhia. Em as Crônicas de Gelo e Fogo, cada capítulo é carregado de suspense, humor negro, conspirações, de forma que ficamos apreensivos a cada passada de pagina. Isso não acontece em a Roda do Tempo. Simplesmente vamos passando a página, e imaginando o que acontecerá em seguida, e nunca somos surpreendidos. Nada de impressionante acontece. Não há lugares maravilhosos, personagens carismáticos (mas não significa personagens ruins) ou uma história excitante. As coisas simplesmente vão acontecendo. Isso acabou atrasando minha leitura; eu simplesmente não tinha mais vontade de voltar ao livro para ler a mesma coisa de novo e de novo. Felizmente, isso mudou nas últimas 200 páginas.
Nessa parte, a história tem seu clímax. Encontramos alguns lugares maravilhosos, alguns personagens se tornam carismáticos, e a história se torna excitante. Essa parte final acabou renovando minha fé na série, e estou esperando desde já o segundo volume, que provavelmente explorará mais o Padrão e a Roda do Tempo.
Como todos devem ter notado, fiz muitas comparações entre O Olho do Mundo e Senhor dos Anéis. Isso se deve à frase transcrita na capa do livro: “Com A Roda do Tempo Jordan chega para conquistar o mundo que Tolkien começou a difundir.” Achei essa frase de uma fanfarronice extrema… e as comparações acabaram surgindo naturalmente. Não há como comparar esse livro a nada que Tolkien escreveu, mas espero realmente que os próximos livros me surpreendam, e eu acabe sendo cativado pela série.
Minha Avaliação:
3 estrelas em 5
