O primeiro contato que tive com a Victoria Schwab foi com o livro A Guardiã de Histórias, cuja premissa é extremamente original, porém muito mal aproveitada. O meu maior receio em ler A Melodia Feroz foi justamente me decepcionar, já que este enredo é muito mais convidativo do que o do livro citado anteriormente. Finalmente Schwab conseguiu me prender e me surpreender de maneira tão positiva que não vejo a hora de ler o próximo volume.
A Cidade V, dividida entre Norte e Sul, é comandada por dois líderes que tentam a todo custo manter os monstros longe dos humanos. Callum Harker, do Norte, tem uma imensa coleção de corsais e malchais, monstros que surgem a partir da violência humana, enquanto Henry Flynn, do Sul, possui apenas três sunais, que trata como filhos, alvo de desejo de Harker, já que são a espécie mais rara. Cada monstro surge de uma forma diferente, com níveis maiores de violência, por exemplo, os sunais aparecem em crimes muito sombrios, como atentados em massa onde há centenas de vítimas.
Em meio a esse caos transvestido de uma trégua que pode ser quebrada a qualquer momento, temos dois personagens principais: Kate Harker, filha do líder do Norte, cujo maior desejo é ser reconhecida pelo pai e August Flynn, "filho" mais novo de Henry Flynn e também sua arma secreta, já que é um sunai muito poderoso. Os nossos protagonistas se encontram quando August recebe a missão de ficar de olho em Kate na escola, para o caso de uma possível guerra vir à tona.
A Melodia Feroz é exatamente uma metáfora para a violência real no mundo em que vivemos, onde cada ato gera um monstro como consequência. Os corsais são criaturas que se alimentam de carne humana, enquanto os malchais sobrevivem apenas com sangue. Os sunais, os raros monstros justiceiros, se alimentam apenas da alma das pessoas que já estão machadas. Basta uma nota musical para que o humano seja condenado. Não há ditado que descreva melhor esse livro do que "violência gera violência".
— Por que têm tantas sombras no mundo, Kate? Não deveria ter a mesma quantidade de luz?— Não sei, August.— Não quero ser um monstro.— Você não é um — ela disse. [...]
— Dói — ele sussurrou.
— O quê?
— Ser. Não ser. Me entregar. Me conter. Não importa o que eu faça, tudo dói.
Kate inclinou a cabeça para trás, apoiando-a na banheira.
— O nome disso é vida, August — ela disse. — Você queria se sentir vivo, certo? Não importa se é monstro ou humano. Viver dói. (p. 315)
Os capítulos são narrados em terceira pessoa de forma alternada entre os protagonistas, permitindo-nos conhecer um pouco mais de cada um. Num primeiro momento, achei Kate uma garota muito insuportável e mimada, mas com o passar dos capítulos a gente nota que tudo o que ela quer é o amor do pai e vai fazer de tudo para conquistá-lo. Tanto que a personalidade da menina vai surgir apenas da metade do livro pra lá. No começo, eu senti que todas as ações dela eram uma espécie de máscara para esconder a verdadeira Kate das pessoas.
August é sem dúvida o meu personagem preferido, pelo menos nesse primeiro volume. Apesar de ser um sunai, é impossível não enxergá-lo como um humano comum, lotado de sentimentos e vontades. August é aquele tipo de personagem que tem de tudo para se corromper, mas luta contra isso com todas as forças. Ele definitivamente ganhou meu coração quando levou para casa o gatinho de uma de suas vítimas — lembrando que August só se alimenta da alma de pessoas que já estão corrompidas pelo mal.
Uma coisa que me agradou bastante em A Melodia Feroz é que, pelo menos em um primeiro momento, não há um romance entre Kate e August. Quer dizer, é nítido que eles se gostam e que esse sentimento pode ir além do segundo volume da duologia, mas isso não foi o foco no primeiro livro. Confesso que fiquei torcendo para eles ficarem juntos sim, vocês podem me julgar o tanto que for, e vou continuar torcendo. Mas convenhamos que não é realmente necessária uma interação romântica entre os personagens para o livro ser considerado maravilhoso, não é mesmo?
A narrativa é muito fluida, os capítulos curtos — que vocês sabem que eu amo — e o fato de a autora ter divido o livro em quatro partes fez com que tudo se encaixasse direitinho. Victoria Schwab criou uma fantasia sensacional para realmente explicar o que acontece no mundo onde vivemos, e conseguiu me deixar curiosa para o próximo volume de uma forma que ela não conseguiu em A Guardiã de Histórias.
Título Original: This Savage Song
Autora: Victoria Schwab
Páginas: 384
Tradução: Guilherme Miranda
Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora
