Chegar ao fim de uma série da qual se gostou muito pode ser sempre um problema. Não se trata apenas do conflito entre descobrir o final versus ficar sem mais volumes para ler, mas também aquele medo inevitável de que o desfecho não alcance todo o seu potencial. No caso de A Heroína da Alvorada, foi esse medo que me fez enrolar para ler um livro que eu tinha em mãos havia algumas semanas. Porém, ao concluir esse terceiro e último livro da série A Rebelde do Deserto, a sensação foi de alívio, misturada à emoção de que foi um desfecho perfeito para uma série tão incrível.

Nos primeiros livros, vimos a rebelião avançar, com grandes ganhos e perdas. Agora em meio à guerra, Amani precisa liderar os poucos que escaparam do sultão — após terem sido traídos por alguém em quem confiavam — para encontrar e libertar seus amigos presos em Eremot. O percurso à frente é longo e qualquer perda pode significar o fim de tudo por que lutaram.

Uma parte de mim seria sempre aquela garota egoísta da Vila da Poeira, tentando sobreviver.

Assim como nos outros volumes, o livro é narrado em primeira pessoa por Amani, com alguns capítulos intercalados que mostram os pontos de vistas de outros personagens em terceira pessoa. O interessante desses capítulos é que eles foram contados como se fossem contos ou lendas, histórias narradas por alguém muito tempo depois que haviam acontecido. Alguns desses trechos intercalados ilustravam passagens de antes da guerra; outros conseguiam nos situar sobre o que estava acontecendo com os personagens mantidos longe de Amani. Essa construção não só deu mais consistência ao enredo criado pela autora, mas também serviu para acelerar o coração do leitor, já que cada um deles implicava alguma reviravolta na história.

O enredo todo, aliás, é cheio de reviravoltas. A autora quase me matou de medo em diversos momentos. O perigo, dessa vez, está em cada canto, já que os inimigos estão espalhados por Miraji; não só o sultão e os abdals, mas também os estrangeiros e os djinnis, nunca se sabe em quem se pode confiar. Trata-se de uma guerra, afinal. E só por ter conhecimento disso, o medo de perder personagens que amamos é uma constante durante a leitura, a tensão é inevitável e, é claro, é impossível desgrudar do livro.

Continuávamos perdendo pessoas. E não só as nossas. Pessoas que pertenciam a outras. Pessoas cujas vidas não tínhamos o direito de sacrificar.

Eu amei a mistura que a série fez entre tópicos aparentemente diferentes entre si, mas que deram complexidade à trama. No enredo, há muita aventura, ação, fantasia, debate de questões políticas e geográficas, amizade e romance. Mas não é só isso: o enredo, embora não tenha de fato muito a ver com a nossa realidade, mostra a importância de acreditar em algo e lutar por isso e revela que é difícil, sim, mas é importante, e nada mudará se não fizermos nada.

A Heroína da Alvorada resgata ainda personagens que apareceram nos primeiros livros e consegue dar para todos eles um desfecho. Sinceramente, de alguns deles eu até já tinha me esquecido, mas não Alwyn Hamilton, que conseguiu trabalhar com um enredo fechadinho, aparou as arestas e trouxe um pouco de equilíbrio entre o passado sofrido de Amani e seu presente.


Quem eu pensava que era? A filha de um djinni. Uma rebelde. A conselheira do príncipe. Havia enfrentado soldados, pesadelos e andarilhos. Havia lutado e sobrevivido.

Sinceramente, nem podia imaginar a quantidade de emoções que esse livro me trouxe. É engraçado eu dizer isso porque é "só" uma fantasia, mas a obra envolve de tal modo que eu me senti uma amiga daquelas pessoas do deserto. Foi ótimo acompanhar o amadurecimento da protagonista e a forma como seu sentimento por Jin se tornou tão sólido. Foi maravilhoso ver como ela e Shazad se tornaram amigas, mesmo que a diferença entre elas fosse tão gritante. Eu me apaixonei por cada um desses personagens e por tantos outros, cada um construído com maestria, indivíduos cheios de paixão, de compaixão, de fogo e de brandura, tudo ao mesmo tempo, tão diferentes e tão iguais entre si.

Durante a leitura, eu ri muito - de nervoso e de diversão -, mas também chorei descontroladamente. Terminei o livro com lágrimas nos olhos e emocionada com a forma tocante e verdadeira com que Hamilton encerrou o livro. Amani e seus amigos se tornaram lendas, com suas histórias contadas noites adentro na areia do deserto, mas poucos saberiam de verdade a profundidade da dor e do amor envolvidos nela.

Nós contínhamos nossas próprias histórias. Milhares de pedacinhos dela morreriam conosco.

Se alguém procura uma boa fantasia para ler, por favor, escolha a trilogia A Rebelde do Deserto. É aquele tipo de história que parece não ter muito de novo a oferecer, mas que, quando se percebe, tomou conta de você por inteiro e A Heroína da Alvorada é o melhor final que a série poderia ter.

Título Original: Hero at the fall

Autor: Alwyn Hamilton

Páginas: 384

Tradução: Eric Novello

Editora: Seguinte

Livro recebido em parceria com a editora