Por várias vezes eu desejei ler Divergente. Isso, até assistir ao filme e receber spoilers de como termina o último livro. Aí, fiz o contrário, fugi dessa série. Então, fiquei sabendo do novo livro da autora, Crave a Marca, que traria um enredo que agradaria aos fãs de ficção-científica, mais especificamente, aos fãs de Star Wars. Bem, acredito que se eles lerem a história, não vão gostar muito do que vão encontrar.

Antes de continuar, tenho de deixar uma coisa bem clara: Crave a Marca não é ficção-científica. A grandiosidade do enredo que é descrita na sinopse, sobre os dois personagens poderem influenciar toda uma galáxia, é exagerada, uma vez que o enredo acontece quase em um único planeta, em uma única cidade, e os perigos que eles enfrentam, são sobreviver a lutas dentro de arenas. Crave a Marca é, sim, uma distopia, misturada com Young Adult.

E a autora usa outras inspirações para compor uma trama arrastada, confusa, com cenários pouco descritivos e uma ação tão rasa, que desanima. Ela utiliza a velha fórmula do casal de famílias rivais (neste caso, de raças rivais), que se apaixonam; da filosofia da Força de Star Wars, misturada com poderes mutantes e predestinação; e de Jogos Vorazes, misturado com gladiadores da Roma antiga.

A dor havia se tornado parte da vida.

Mas isso nem seria ruim, se fosse bem aplicado. A autora se perde em compor uma história, que tinha potencial para ser cheia de acontecimentos fantásticos. O que ela consegue, é desperdiçar o que usou das outras obras como base para a sua.

As naves espaciais, ou melhor, a nave espacial, uma vez que só aparece uma e, mesmo assim, é muito pouco descrita, serve apenas para locomoção; as armas utilizadas, são todas da idade média: facas e venenos; as armaduras de luta, bem... não consegui compreender o que elas são, porque são feitas de materiais que não conhecemos, e nem são explicados.

Entretanto, o livro não tem apenas defeitos. Vou falar de uma coisa que realmente me agradou: Cyra. Ela é irmã do vilão do livro, Ryzek, que governa a nação Shotet com mãos de ferro, e mata qualquer um que vá contra seus planos. O poder de Cyra é fazer os outros sentirem dor. Esse poder é visível por todo o seu corpo através de fios negros, sempre em movimento por baixo de sua pele. Quando ela usa toda a força de seu poder, sua pele fica totalmente negra. Mas a dor que ela causa com um toque, ela sente o tempo todo. Mesmo com analgésicos fortes, a dor está sempre lá.

Ryzek usa o poder da irmã em sessões de tortura, para conseguir confissões dos inimigos. Akos, da nação Thuvhe, que é sequestrado ainda criança pelos Shotet, possui um poder que Ryzek julga imprescindível para controlar Cyra: Akos anula o poder de Cyra. Assim, quando Cyra é tocada por Akos, ela para de sentir dor. Os dois passam a viver juntos, o tempo todo.

Cyra me consquistou por sua fragilidade, pelo que ela sofre nas mãos do irmão, por seu conflito moral ao ferir os outros, por sua perseverança em tentar se libertar e por seu senso de justiça. Mais do que isso, é Cyra que gere todas as ações da história, até mesmo aquelas perpetuadas por Akos, uma vez que ela se envolve em todas sem ele saber.

Ele era uma flor-sossego; puro poder e possibilidade. Capaz de fazer o bem e o mal na mesma medida.

Mesmo assim, e infelizmente, isso não é suficiente para salvar a história. Inclusive, existe outro ponto na narrativa que me deixou confuso: os capítulos são alternados entre Cyra e Akos. Nos de Cyra, a narrativa é feita em primeira pessoa. Nos de Akos, a narrativa é em terceira pessoa. Não há nenhum motivo justificável para isso, uma vez que o foco da ação nos capítulos de Akos, se concentram todos nele. A menos que a autora pretenda matá-lo no futuro, por isso ele não conta sua própria história. Não sei se isso é verdade, então não encarem como um spoiler, mas foi a única explicação lógica para a mudança de narrativa.

Acredito que o prazer na leitura de Crave a Marca dependa de com qual expectativa você irá ler. Ser você for fã de Young Adult, de romances, de distopias leves, conseguirá apreciar a história. Agora, se você for fã de ficção-científica, de fantasia, de Star Wars, não irá conseguir apreciar, como eu não consegui.

Título Original: Carve the Mark

Autora: Veronica Roth

Páginas: 480

Tradução: Petê Rissatti

Editora: Rocco

Livro recebido em parceria com a editora

Texto por Carlos Barros