«Quanto a influências, é provável que a minha obra tenha sofrido o ascendente da literatura espanhola do século XVII. Li-a bastante e é difícil escapar ao seu ácido realismo, ao vigor dos seus quadros de uma humanidade viva e borbulhante. Em Espanha, há sempre que explorar. Pegue-se num castelhano: é uma contradição desconcertadora. Que poderia produzir a fusão da personagem fantástica, heróica e orgulhosa, sonhadora e extremamente activa, de que Aníbal fez o guerreiro temível que os romanos venceram mas não curvaram, com o árabe audaz e desconfiado, sem escrúpulos morais e imbuído de pundonor? Sem dúvida o espanhol, como o português, deve mais ao tipo de origem do que às raças que vieram enxertar-se no tronco ibérico. Os romanos colonizavam como fazem hoje os ingleses, sem grande desgaste dos seus. Os bárbaros correram através da província e foram perder-se em África. E a invasão árabe não foi senão uma torrente, depressa estancada. Os árabes, contudo, deixaram em Espanha a espuma do seu génio. Isso bastou para dar um aspecto característico ao temperamento espanhol, que daí resultou complicado, absurdo e versátil. Vejamos Séneca, que nasceu em Córdova: não é o mais inverosímil dos filósofos?»

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Séneca (Córdova, 4 a.C. – Roma, 65 d.C)