(...) «Num dia de empecilho, os machos soltaram-se e, logo por desgraça, foram meter debaixo das ferraduras o cebolinho da Carvalha, no linhar do Pai-Moiro. Era a tia Carvalha uma sorbebona que nem com um dedo molhado permitia que lhe tocassem no que era seu. O Isidro, conhecendo-à légua, foi-se direito a ela, pronto a indemnizá-la do estrago; a mulherzinha, porém, mostrou-se exigente, pedindo mais que a valia do terreno. Ameaçou-o que ia para a justiça.

  -- Quem lhe pega? -- retorquiu o almocreve. -- O caminho está desimpedido.

Se bem o prometeu melhor o fez. Passante dias, andaram os louvados e os oficiais de diligências para cima e para baixo, e o Isidro começou a dizer mal de sua sorte quando os viu sair de casa dela a arrotar a vinho e salpicão com ovos. Depois, enquanto duraram os preâmbulos da demanda, os cabritos e as trutas choveram para a vila, não havendo tratante de justiça a quem ela não untasse a barbela! O almocreve deitou os olhos para a Quinta da Boavista e, uma manhãzinha, apresentou-se lá com cinco perdizes, pagas a onze vinténs ao Raposo de Vila Chã, e uma lebre que viera, esparvadiça com a geada, pegar-se-lhe nos arames.

Bateu à porta:

  -- Ó da casa!

Uma criadinha ruiva levou as perdizes, e volveu a dizer:

  -- O meu senhor está ainda na cama. Tem de esperar.

Sentou-se no patim, fartou-se de ver caras, de ouvir rumores de casa rica. Mudou de poiso, bocejou, pediu a Deus paciência e sorte. Decorrida uma grande meia hora, a moça veio acocorar-se a um canto da escada a depenar as perdizes.

Para matar o tempo, o Isidro puxou-a a paleio. E depois de se fazer rogada, por se tratar dum pilorda como ele, lá foi dizendo:

"Só tinha bem a dizer dos amos. O senhor era um fidalgo de muito respeito que punha a vila do avesso com uma perna às costas; e o chaço dos homens! Ali não havia que pôr pitafe."

E contou que fora levar-lhes a caça à cama, a sua senhora que gostara muito, e que, pondo-se a ver as perdizes que tinham esporão e as que não tinham, dissera: "Coitadinho deste perdigão tão bonito! Elas seriam todas mulheres dele?" A sua senhora tinha muita piedade, era mesmo a mãe dos pobres.

Depois de muito conversar, acrescentou:

  -- Sabe, os meus senhores são muito debiqueiros nas comidas. Apreciam a perdiz, lá isso apreciam, mas por trutas dão o cavaquinho. Dizem que a mãe delas é lá para os seus sítios?!

  -- Olhe, menina, foi-o em bons tempos. Hoje com a cal e a coca estuporaram tudo. Mas eu cá ainda sei onde elas andam.Tenho lá um compadre que é a alma dum pescador: dá o mergulho, e sem trazer uma em cada mão e uma terceira nos dentes não volta ao de cima.

A criada fitava-o com olhos de rata, muito espertos, e um dente de oiro que luzia.

  -- Pois ele já não há peixe; mas se seu amo me livra destes assados, a morte me coma se se não enfastiarem aqui de trutaria.» ...

    (continua)

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pitafe
s. m. || (prov. port.) defeito, censura, apodo: Quem quiser ponha-lhe pitafe. || V. bitafe.