(...) «O almocreve impacientou-se:
-- Está-se-me a fazer tarde, tio Joaquim, e não atamos nem desatamos. Eu vim de espora fita trazer-lhe o azeite, mas se não lhe convém, paciência...
Serve-lhe esta palavra?
E, declinando um preço, ficou à espera, chapéu gingado para trás, joelho torcido para a frente.
O vendeiro demorou a resposta; depois, as mãos paradas nas guedelhas da cachopita, proferiu em tom decidido:
-- Já que veio de propósito, eu fico-lhe com a carga. Mas dois tostões a menos em cada almude; aí tem!
"Mas perdia, assim a benção de Deus o cobrisse; perdia, tio Joaquim!"
-- E não sei se tenho vasilha! Vai cabriolar, fedelha; há-de-te comer a bicharia! --exclamou empurrando a pequena para fora dos braços.
Passavam juntas de bezerras, soltas e mansas, as ancas grudadas da bosta dos estábulos. O papagaio do senhor padre já não praguejava, nem se viam as frangas amorosas com seus galantes sultões. Um pastor lançou a salvação de cima do jerico, atrás das vacas. O camponês da ombreira falou-lhe:
-- Viste as minhas badanas lá pelo Margote, ó coisinho?
Vinham atrás dele. E, muito direito, seguiu no jumento, como um general.
Entraram para a taverna, e o vendeiro acendeu a luz.
O Isidro foi direito ao balcão e, nos grandes jeitos de paz ou de guerra, propôs:
-- Para não gastar mais água na boca, racha-se a diferença, quer?
A cabeça pitoresca do taverneiro torceu-se duas vezes na mesura dos lances aventurosos, esbeiçou os lábios, anuiu. Apressou-se o almocreve a selar o contrato com uma jura honrada de negociante:
-- É por ser para quem é. Negro eu seja se tiro um puto real!
Deitou-se num prato um fio de azeite para prova. A faiança coloriu-se de oiro, doirado ficou o cavaleiro verde na verde historiação dos oleiros. As pessoas que estavam molharam o dedo e levaram à língua. E, entre tantos de palato gozoso, só o homem das vacas, para agradar ao senhor da taverna, pôs pecha:
-- Sempre lhe digo que o outro não era lá grande fazenda.
O Isidro, que havia ganho uns cobres, complacentemente respondeu:
-- Este não há-de ser pior. Mas tomara eu ter a alma tão pura como era o outro.
Pelo jarrete esfolado do bode, a azeite escorreu para a grande caixa de zinco, num jorro espalmado e recurvo como cimitarra ao sol. Depois, soprando aos odres, tirou-lhe o último grocho, que a tia Quitéria acudiu a recolher no prato para as batatas da ceia. E, para se não perderem as escorralhas que lhe enlambuzavam os dedos, esfregou-os nos sapatos bem dum lado bem do outro, pois melhor que o azeite só sebo de cabrito para amaciar o cabedal.
Contas feitas, beberrricaram.» ...
(continua)
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693
Badana — ovelha negra e magra.
Grocho — golinho