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Jan24

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

 (...) «O almocreve foi encarregado de ir à vila buscar Isaac Claro, de volta da capital. Como a égua da casa andasse para parir, levou os machos, um para o fidalguinho, o outro para a bagagem.
(...) ...
Ao trepar a Serrinha alcançaram o Cleto, que voltava da vila, escanchado no velho garrano, entre os potes do leite. Tupa que tupa, puseram-se todos três de longada, o cavalo atrás, molesta mas resolutamente, no seu gosto de companhia.
(...) ...
Entre sombras desgrenhadas de castanheiros, o monte descia suavemente para uma aldeia. Nas eiras, os galos cantavam laudes, que era a hora da tarde em que a planície parece mais religiosa que uma igreja em que se vai rezar. Ao atravessarem umas almuinhas, deparou-se-lhes o Corneta, que vendia azeite. Enquanto mungia o odre para o quartilho, melifluamente exclamava:
  -- Até arde sem pavio!
O Isidro surpreendeu-lhe os sorrisos molangueiros, e, à ideia da fortuna do rival crescida a bom crescer, não se segurou:
  -- Quantas canadas de mendubi lhe deitaste, ó Corneta?
O outro retrucou-lhe na cara:
  -- Não tenho as tuas manhas, ladrão!
Mas Isaac tocou o rancho para a frente, na voz autoritária que aprendera no quartel:
  -- Vocês, os pobres, são piores que cães uns para os outros.
O almocreve buscou explicar-lhe as alicantinas do Corneta, que comprava óleo às latas e o misturava nos odres. Mas, não lhe dando ouvidos, foi o Cleto que respondeu:
  -- Você andou mal, seu Isidro. Olhe que aquilo é má rês!
  -- De peito a peito tem homem.
  -- Andou mal... Andou mal...
  -- Que queres, Cleto, o safado roubou-me a freguesia com as suas sete falinhas doces!
O caminho dilatava-se indolentemente, e tocaram as bestas, que o sol descia no horizonte. Já lençóis roxos de nuvens, cingindo-o por todos os lados, o levavam a sepultar no mar.
O monte rescendia do maio; cabras, imóveis no meio dos rebanhos, cismavam; pastorinhos sentados em cima duma parede, com as pernas a bater, rangiam na frauta a sua modinha desafinada.
Em tom de desfastio, Isaac perguntou:
  -- Digam-me cá: que é feito das Amadas?
  -- A mais velha casou em S. Martinho. As outras estão solteiras. Duas raparigaças de truz!
  -- E a Carmela?
  -- Bu, essa é de quem a quer. O demónio tem desmoçado os rapazes todos da freguesia.
Após breve pausa, tornou o moço:
  -- Então, senhor Anacleto, vossemecê sempre ao leite?
  -- Não há remédio.
  -- Quanto ganha por dia?
  -- Oito vinténs.
Calaram-se.
  -- É uma vergonha!... Ouça: nunca lhe subiu à cabeça pegar numa tranca e levar tudo raso? Trincar esses ricaços?...
O Cleto e o Isidro desataram às gargalhadas sem haverem compreendido.» ...                                                                                                                                                                            (continua)

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adjetivo e substantivo masculino 
Uso: informal.
que ou aquele que é falto de energia, de vigor [sin.: indolente, molancão, molancas, molangueiro, molanqueiro]
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Mendubi
Rubrica: angiospermas. Regionalismo: Brasil.
m.q. amendoim (Arachis hypogaea, 'semente')
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"

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publicado às 20:52