Fúnebre Amor

Belo fim para quem morre a amar muito.

Pierre de Ronsard

Se é tudo negro e vazio

De que vale perdurar

Num viver destarte frio

Sem ninguém para me amar?

E se nesta noite bela,

Enlevante em resplendor,

Não há sorrisos, donzela,

Nem os teus beijos de amor.

Ah! se pudesses lembrar

Nossa prístina ventura,

Se tu pudesses me amar

Como me amaste, tão pura...

Recordo-me de ti morta,

Da languidez nos teus olhos;

Nada na vida conforta

O chorar dos meus refolhos;

Triste musa, inda te sinto,

Tal qual um profundo corte,

Amo-te tanto e não minto:

Quero-te! mesmo na morte!

Não tenho nada a perder,

Não tenho nada... ninguém...

Tudo o que anelo é morrer,

Mas a morte, ela não vem...

Por que sou tão desgraçado?

Mancebo louco, poeta

Que sofreu por ter amado...

Chora, ora, o amor que o asseta!

Vez última, beijar-te-ei

O rosto pálido e pulcro;

Após isso dormirei

Para sempre em teu sepulcro!

Renan Caíque